quarta-feira, 7 de abril de 2010

Acidentes acontecem...


Tenho um problema com esta expressão.



Não gosto muito do imprevisível e acidentes têm lá um quê de imprevisibilidade.


A palavra acidente lembra coisa ruim, acontecimento infeliz. Mas também significa acontecimento casual, imprevisto.


Não sou matemática, mas calculo um bocado. Os minutos do dia, a agenda dos meus compromissos, a agenda dos meus compromissados, os dias de folga, os dias de trabalho. Calculo bem para não quebrar copos, para não manchar o vestido, para não perder o horário, para não me esquecer da data.


Mas sabe que, no final, quem se compromete comigo falha, a máquina estraga e eu erro a mão. E às vezes do copo caído da mão, resta o caco, mas também a gargalhada.


Nestes dias de abril, quando as chuvas começam a nos abandonar e meu ano se impõe, penso em acidentes, em aceitar o imprevisível... O amor, este sentimento que a gente busca a vida inteira, não tem lugar em calendário. Mas com certeza mora bem perto, no dicionário, dos acidentes.

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Reencontrei há mais de um mês com aquele que era meu ex-namorado, em um “tempo da delicadeza”, como diria Chico Buarque. Foi um acidente. Foi um baque. Eu não esperava nutrir por alguém do meu passado um sentimento do presente. Tive uma urgência de viver novamente ao lado dele. Então, não dissemos nada e resolvemos seguir como que encantados um ao lado do outro. Inesperado, urgente e fatal. Assim é o amor, que não vive de avisos, que não se corresponde com tempo, que habita no que não se sabe das pessoas.

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Quando fiquei grávida, em 2003, em um mês de abril, saí completamente do roteiro que tinha escrito para minha vida. Não me lembro quais seriam os capítulos seguintes, talvez porque fossem pobres demais. Mas me lembro do susto, do desconsolo, do medo e do pavor. Ser mãe praticamente sozinha, sem grandes economias, sem grande segurança, não parecia ser “de colher”. Nunca disse que tinha sido um “acidente”, porque estas coisas não são acidentais. Mas foi como um acidente, inesperado. Quando o Tomás mexeu na minha barriga e me fez chorar, lembrei então de outra música: “foi assim como ver o mar...”. E tive certeza de que certas fatalidades são tão imprevistas quanto desejáveis. No imprevisto mora o amor, porque o amor não se planeja.


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No dia em que meu pai foi embora deste mundo, eu estava em casa. Eu não deveria estar em casa. Não estava nos meus planos, mas porque a gente faz planos com a vida dos os outros e os outros às vezes se recolhem com os seus próprios planos, eu fiquei olhos nos olhos com meu pai, em um domingo acidental. Ouvíamos Maria Rita. “Quando a gente ama, brilha mais que o sol. É muita luz. É emoção. Quando a gente ama, é um clarão do luar, que vem abençoar o nosso amor”. Meu pai se foi em meus braços. Esvaiu-se em meus braços, mas aqui dentro, sem esperar o esperado, brilhou uma luz. Era a luz que mora no coração, quando este tem certeza de que ama. Como eu saberia que ela existe se eu não estivesse lá?

2 comentários:

  1. Acidentalmente descobri que há uma segunda chance para o amor.
    Como que tomado de assalto, coloco minhas mãos ao alto e me rendo aos seus encantos.
    Te amo em nossa "revolta", te amo no começo de uma vida inteira.

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  2. Assim como no Aurélio, aqui fora o amor também mora perto dos acidentes. Muito perto. Juntos, por vezes.

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