quarta-feira, 9 de junho de 2010

Para amar depois dos 30


Estou certa que amar depois dos 30 é diferente de amar aos 20. Exige mais, bem mais, dos amantes, do que a naturalidade do primeiro amor. Exige cálculos nada matemáticos, mas que somam, dividem, diminuem e multiplicam em um tempo da vida que o caminho trilhado quase deixa o vagão estacionado. O amor iniciado a partir dos 30 exige coragem para deixar as noites bem ou mal dormidas, mas todas conhecidas, para se arriscar nas noites ao lado de alguém.


Começar um amor aos 30 significa, sobretudo, reaprender aquilo que a vida, por algum motivo, deixou de nos re-ensinar: a tolerância. Não estou aqui dizendo que depois de viver 29 anos, a pessoa se torna intolerante. Mas, pelo que conheço, a tolerância se torna bem mais limitada. E quando se está sozinho, há algum tempo, ou quando já se viveu decepções demais, o coração fica menos mole ou talvez mais precavido e resolve criar certas regras: “isso não”, “aquilo de jeito nenhum”, “nunca com isso”. E às vezes no anseio de proclamar a nossa maturidade, a gente confunde “seletivo” com “intolerante”.


Sim, sim. Com 30, temos mais capacidade para escolher e não ser escolhido. Já sabemos mais sobre nós mesmos, mesmo que este saber nunca seja o suficiente. Com 20, a gente tem que contar com sorte e ouvir mais os palpites de um coração apaixonado do que a sabedoria de ser jovem. Mas não podemos deixar que as histórias vividas, o amargo de uma, o saudosismo de outra, não deixe a gente arriscar, tolerar algo nunca imaginado, abrir mão de um certo comodismo de uma vida sem sobressaltos.


Aceitar algo novo significa entrega e pode ser um presente em uma idade em que a gente tende a confiar mais no próprio taco, em que sabemos o que nos faz feliz, em que não temos tempo para pequenas picuinhas, em que a mentira não nos pega como antes. Mas não é fácil... Nunca é. Você está lá, há 2, 4, 7 anos sozinho, vivendo relações furtivas e divertidas, mas sem compromisso. Decide aonde vai, com quem, como vai. Decide também não ir. Decide ficar feio. Decide escandalizar. E isso só diz respeito a você e ninguém mais. É uma liberdade que, com 30, muitas vezes não causa anseios românticos. Muitas das balzaquianas que conheço aprenderam a se bastar de tal forma que abrir uma porta para alguém entrar é um grande esforço.


Muitas delas dizem que querem, que estão disponíveis, mas na hora H, pinta uma dúvida tremenda, um receio de sofrer, uma preguiça de tentar de novo. E de preguiça, eu entendo muito. Quase encerrei carreira, porque amor dá muito trabalho. Então nos fechamos por ali mesmo, brincamos com paixões passageiras e nos esquecemos do melhor sentimento do mundo. (Até porque é possível ser feliz sozinho).


Se isso acontece com você, não desista. Amar e ser amado vale muito a pena. Dias atrás, sem pensar na vida, recebi uma chacoalhada do meu pequeno herdeiro. Vínhamos da escola e ele me contava emocionado sobre o beijo que recebera de S. Na bochecha, of course. E eu fiz pouco caso, quando ele me perguntou:

- Mãe, você já beijou o amor da sua vida? Sim, porque eu já beijei e isto é a coisa mais maravilhosa do mundo.


Meu filho tem 6 anos e sabe que isso vale qualquer aborrecimento, desgosto, preocupação, desilusão. Na semana do dia dos namorados, receito a recomendação de Tomás, o sábio de menos de dez anos: “não deixe de beijar o amor da sua vida”. Aos 20, aos 30, aos 40...


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Aos que começaram aos 20 e não pararam mais, quero dizer da minha profunda admiração por quem beija o amor da sua vida desde muito tempo atrás. São mesmo graduados no amor. Estar com uma pessoa por mais de 10 anos é tarefa árdua e que requer mais do que tolerância. Requer criatividade, paciência, silêncio e muita gargalhada. Reinventar um amor é mais difícil do que encontrá-lo. Eu peço que me esperem. Estou no começo da viagem, mas chego lá.



Com carinho,


Luisa

6 comentários:

  1. Nossa, Luísa!!! Seus textos são todos maravilhosos, sensíveis, mas este...arrepiou!!! É a mais pura verdade! Já vivi muitas histórias mas, foi depois dos 30 que tive a noção exata do que é o amor. Beijos!

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  2. Amar depois dos 30 é escolher andar de roda gigante ao invés de montanha russa, vender a bicicleta para pagar as entradas e não pular o muro e acima de tudo, começar a comer aveia obrigado mas aprender a gostar e achar uma delícia.

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  3. Texto lindo !

    " já beijei muitos labios de mel ",mas não beijei o amor de minha vida!
    Ainda estou testando... Rs.

    bjos

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  4. Tomás, do alto dos seus 6 anos, sabe muito, muito bem o que diz... E como ele me fez pensar esses dias! E como é bom ao menos achar que beijamos o amor de nossas vidas!

    "Carece de ter coragem."

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  5. Luiza
    Comecei e recomecei diversas vezes... E, coincidentemente, tb estou há 14 anos ao lado de um amor iniciado aos 31 anos; alguém que me completa, de quem sinto raiva passageira, de quem discordo muito, mas tb com quem sinto (quase sempre) imenso prazer em acordar dividindo a mesma cama, os gozos, problemas e dívidas... O amor de verdade - aquele que é superior ao romantismo barato (embora dele não prescinda)- é um sentimento por demais bom de sentir! Mas, sem dúvida precisa ser re-inventado todo dia, precisa, ao mesmo tempo, de paciência e alguma cobrança, de vinhos&flores&comidinhas gostosas pra ficar cada vez melhor,... Que vc tenha tido um grande sábado 12/junho ao lado do seu eleito! Aliás, que todos os dias sejam grandes ao lado dele!
    Bj,
    Vera

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  6. Luisa, gosto demais dos seus blogs!! Acredito que eles são tão bons pq vc o escreve realmente com o coração.

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