segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Sobre metades


Você já foi pela metade? Amigo pela metade? Filho pela metade? Namorado pela metade? Mãe pela metade? Acredito que não. Tem dias que, meio cansado, a gente se embola, fica de preguiça, deixa de fazer, mas mesmo assim, estamos ali 100%. Somos o que somos para os nossos. Imagine se, depois de uma bronca, o Tomás dissesse:

- Meio mãe, me desculpa, vem cá que eu quero falar com você.

Eu correria pela metade ao encontro dele. Não. Não. Isso não é possível. Eu sempre estou ali por inteiro.

Alguém inventou que os irmãos que não dividem a herança genética idêntica são meio irmãos. Dividido ao meio, eles têm o mesmo pai ou a mesma mãe, talvez alguma semelhança, talvez um bocado de história incomum, mas são no jargão comum pela metade.

E, às vezes por obra da vida, são pela metade também nela e não só na linguagem. São pela metade na convivência, nas brigas, nas confidências, nos sonhos, nas intrigas fraternas, nas divisões nem sempre justas, no ensinar a ser mais velho, no aprender a ser caçula.

Eu tenho por obra dos meus pais uma irmã, por inteiro, com quem aprendi a partir dos 6 anos a dividir, a tolerar, a brigar, a me defender, a controlar ciúmes, a esconder tesouros, a defender alguém do mundo. Mas aprendi com ela mais que isso. Aprendi a ser um pouco nela e a tê-la um pouco em mim. E aprendi que, além dela, poderia ter outros irmãos e irmãs, escolhidos a dedo para me fazer companhia em volta ao mundo.

Para o meu pequeno sempre imaginei um mundo cheio de irmãos, mas, por enquanto, ele tem uma irmã menor por parte de pai e a filha do meu namorado, mais velha, para quem ele reserva os seus testes de fraternidade. Ele é um menino com duas meio irmãs.

Com a irmã caçula, ele faz um exercício difícil de resolver as pendências, superar os ciúmes, estimular o afeto em uma agenda não diária. O que faz com que aquelas briguinhas desfeitas antes do sono, para quem vive por inteiro, se tornem rixas maiores. Com a irmã postiça, ele faz projetos de futuro, gasta seu suor para justificar suas vontades, conta os dias do calendário para a chegada do sábado e anda em ovos para não tirar dela o sorriso inteiro.

Dia desses, de novo em trânsito, ele me diz assim:

- Mãe, por que a vida só me deu meio irmãs?

- Filho, você não é feliz assim?

- Mãe, eu quero uma irmã para morar comigo, para brigar comigo, para dividir comigo. Você não pode trazer a Carol para morar comigo? Eu quero por inteiro.

Que duas metades se tornem, na vida real, inteiras para o Tomás. E que ele possa ser, para elas, também um irmão por inteiro.

* Foto do namorido: Carol e Tomás no parque, em cena da vida
como eles queriam que fosse sempre.

2 comentários:

  1. Que foto linda! Cena da vida que deve sempre iluminar a nossa...

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  2. Amor, que sejamos uma familia por inteiro sempre!
    Valeu Deiroca, acho que descobri mais um talento.
    Beijos.

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