sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Como é que a gente voa?



“Mas como é que a gente voa quando começa a pensar”.




- Mãe, o que é essa voz dentro da minha cabeça?

- É a sua consciência?

- E como faço para ela se calar?

- Mas ela é importante. Não pode se calar. Te incomoda?

- Sim, muito. Principalmente quando ela fica falando sobre a camada de ozônio.

- Hummm. Mas é um assunto importante. É bom pensarmos sobre isso.

- Mãe, quem tem que pensar sobre isso são vocês, os adultos. Eu preciso é brincar. E como é que a gente brinca com alguém falando o tempo todo na nossa cabeça.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Recomeço



“O que está escrito em mim

Comigo ficará guardado

Se lhe dá prazer

A vida segue sempre em frente

O que se há de fazer...”

É amanhã. O recomeço das aulas está lá marcado na agenda. Em casa, os preparativos tomaram conta dos últimos dias. Há um cheiro que me dá saudades de folhas novas e lápis tinindo com suas cores vibrantes. Cadernos para encapar (confesso que pago pelo serviço), etiquetas para preencher, uniformes para passar, uma nova professora para conhecer e velhas regras para lembrar ao pequeno. E ele já não é mais tão pequeno. A sua resposta mais usual é sempre um aborrecido: eu já sei, mamãe! Como se me avisasse que a música passa repetida na minha caixa de som.

- Filho, seja camarada com os seus colegas!

- Filho, respeite a professora!

- Filho, cuide bem do seu material!

- Filho, preste atenção na aula!

- Filho, não se meta em confusões!

E, para tudo, um enorme JASEI. O que fazer quando quem era pequeno se torna grande e segue seu caminho sem olhar para trás, mas aqui dentro ainda é um desprotegido ser à mercê da minha orientação? Sei que ainda tenho muito a ensiná-lo. Ainda sou eu que digo quando algo está errado ou certo. Mas já ouço questionamentos e contraposições. Ainda sou eu que levo e busco, mas de repente ele me afasta um pouco para dizer o seu limite. Ainda sou eu que decido onde irá estudar, mas ele já não vê o mundo pelo meu olhar e faz planos do qual eu não faço parte.

Mas, como diz a canção que ilustra este post, o que está comigo aqui sempre ficará guardado e a vida segue em frente, sem que eu possa impedir. Se o meu menino toma o mundo pelas mãos, o que eu devo fazer? Além de olhá-lo e de pedir a Deus que cuide dele sempre como se ainda fosse o bebê que acalantei.

E este é só o começo... Bom retorno às aulas!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Mimo do céu

Quando encontro uma flor cor de rosa sem moda que sai brotando pelas paredes e sobe nos muros até alcançar o céu, ganho passagem gratuita para a casa dos meus avós, onde passei as melhores férias da minha infância e onde guardei meus melhores sonhos. Foi assim no começo desta semana de sol, virando uma esquina, me deparei com um pé de Mimo do Céu, fazendo sombra e cor em uma rua qualquer.


Olhando aquelas flores, salientes e agrupadas, voltei a ter seis anos, os pés no chão e um medo famigerado da bengala de Dona Ana, minha avó. O casarão, com quatro enormes quartos sem forro, com janelas de madeira e um grande pátio é o lugar onde descansa a minha memória de pequena, de quem pulava a janela da cozinha para ir direto à ladeira que seguia até o rio Tocantins.

Descia descalça, apesar da dor causada pelas pedras, apenas para não ter nada a carregar depois. Apenas grande, peguei mania de sempre estar de mãos e cabeça ocupada. Neste tempo, apenas descia para encontrar a água serena do rio, onde mergulhava e encontrava a paz de dias que nunca passavam.

Passava o dia ali construindo castelos de areia molhada e pulando da pedra mais baixa, porque me carecia idade para escolher a mais alta. Quando o dia era diferente, pegávamos uma “voadeira”, o vento na cara e o destino certo, uma ilha de areia branca e barraquinhas de palha, onde ficávamos até o sol ameaçar sumir, nadando em água rasa e brincando de conquistar novos horizontes, tão possíveis ali.

Na volta para casa, a ladeira acima sem os chinelos era sempre dolorida e reclamada, centímetro por centímetro. Pensava em construir ali uma escada rolante ou guindaste para carregar o meu corpo cansado de tanta água e tanto sol. Mas eu tinha que vencê-la dia a dia se quisesse descer e eu vencia.

Então chegava lá, no topo, onde a janela da cozinha me esperava, se minha avó não estivesse por lá. Se estivesse, ganhava um jarro de água nos pés sujos e a ordem de entrar pela frente, como gente e não como gato que se arrisca em janelas.

Mais uns degraus e lá estava em casa. Era hora de correr para o chuveiro e vestir roupa decente, porque de biquini ninguém se sentava à mesa. E se sentar à mesa era honra querida e valia o sacrifício de enxaguar o corpo na água fria do tanque ou no chuveiro embaixo da caixa d’água, cuja força da água levava qualquer grão de areia.

Eu sempre preferi o tanque, onde o Mimo do Ceú fazia sombra para os banhos mais demorados e de onde era possível conferir a conversa que vinha do pátio e eram sempre boas conversas, regadas a muitas risadas e lembranças.

Terminado o banho, ia eu arrumar lugar para dividir a fartura daquela mesa, posta com o que tinha de melhor na casa. O fogão à lenha, os potes de barro para esfriar a água, as panelas areadas como prata, os pratos de esmalte, a galinha ao molho recém-falecida eram coadjuvantes das mãos firmes de minha avó.

As mesmas mãos que davam o tom à voz de bronca aos netos que se pareciam com gralhas, que temperavam a comida mais gostosa, que secavam os seus olhos na hora da partida e que cultivavam toda a beleza de um mimo que só se vê no céu me fazem falta agora, quando careço de coragem para subir ladeira.

Que a memória destas mãos venha ao meu socorro quando eu não souber o caminho a seguir. Saudades...

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Para 2011


Chego aqui, finalmente. Um ano ímpar para compensar a pouca sorte dos anos pares. É bom estar aqui, com 12 meses de caminhada, novos projetos, sonhos renovados e a vontade de seguir adiante.

Este ano não fiz minha tradicional lista de desejos. Achei que ia passar da conta se enumerasse as minhas vontades.

Foquei apenas na vontade central de melhorar como ser humano para, como mãe, filha, namorada, amiga, ser uma pessoa melhor, mais generosa, mais tolerante e menos impulsiva.

E, no desejo de responder ao Tomás, com suas dúvidas sobre o mundo que se descobre na sua frente.

- Mãe, dia 25 é aniversário de Jesus. E o aniversário de José, é quando?

- Mãe, podemos engarrafar as nuvens?

- As mães sabem quando seus filhos vão virar ladrões? Não podem fazer nada por eles?

- Por que as férias dos adultos terminam tão rápido?

- O que a gente faz quando os amigos vão embora?

- Por que você não se casa?

- Por que as pessoas moram nas ruas?

- Cadê a mãe deste menino (pedindo esmola no sinaleiro)?

- Quem inventou o salário?

- O que fazem as pessoas que não vão para o céu?

- O que acontece com o espinho que não sai do pé?

- Por que não podemos almoçar sorvete?

- Você tem certeza que o Papai Noel existe?

Então, sigo 2011 neste desafio de ser uma mãe capaz de responder e, às vezes, calar. Capaz de compreender o outro que se forma na minha frente. Capaz de acolher suas dúvidas, seus medos e seus anseios. Capaz de aceitar que, às vezes, também temo.

E vamos seguir...

Foto: avioletadanca.wordpress.com