“Quando te vi amei-te já muito antes.
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo.
Não há cousa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que o não fosse porque te previa,
Porque dormias nela teu futuro”.
Fernando Pessoa
Me descobri grávida em um mês de maio. Um exame de sangue me denunciou com um sinal ≥. Nem +, nem -. Mas, a partir daquele dia, minha vida nunca mais foi igual e tornou-se para sempre maior. Maior em mim e fora de mim. A barriga não acompanhou o “aqui dentro”, que extrapolou bem mais que as roupas do armário e os conceitos que eu usava até então.
Na minha vida, existe um antes e um depois. O Tomás é o meu marco de mudanças, amadurecimento e desejo real de ser uma pessoa melhor. Até a chegada dele eu acreditava piamente ser “a melhor”. Sim, a maternidade me doou com doses cavalares de tombos e tropeços humildade e tolerância para com o mundo. E aguçou o meu senso crítico, antes usado com perspicácia para fora e nunca para dentro.
Com o exame em mãos, eu comecei a viver longos dias, como vivem todas as mães à espera dos seus pequenos, e a me embaraçar nos preparativos impossíveis para me amparar nesta chegada. Quarto, mala, enxoval, nome, exames apenas exercitam nossa paciência de espera e de escolha. Dali para a primeira escola é um pulo e muitas outras angústias. Para ser mãe, é preciso se redescobrir a todos os dias e crescer junto a fita métrica que acompanha a metragem dos filhos.
Me lembro bem que, durante o pré-natal, encontrei outra mãe, já experiente, na sala de espera de um consultório e ela me disse sabiamente:
- Daqui para frente seu coração bate em outro lugar!
Eu que até então vivia para mim e por mim descobri esta verdade irremediável e incontrolável. No meu caso, meu coração passou a bater no peito de um menino peralta, falante e sonhador com canelas roxas, cílios longos e sorriso enorme. De lá para cá, são sete dias das mães cujos beijos e abraços se tornaram indispensáveis e um presente repleto de significados e possibilidades de sempre poder ser melhor do que era ontem, de perdão para as minhas imperfeições e de alegria e medo por viver um amor incondicional.
Ganhei, com o Tomás, a possibilidade de cuidar e de exercer este carinho em tantas outras relações. Porque a nossa vida se torna maior, o amor ganha status de infinito e os caminhos se abrem. Como mãe, fui tia muito mais vezes e de forma diferente. Fui também filha, madrinha e irmã. Fui mais amiga ou, pelo menos, tentei.
E por causa do meu amor de mãe aprendi também que as relações e os encontros com os filhos não acontecem só na maternidade e não são exclusivos. Recebo diariamente um amor que originalmente não era para mim, mas que se encontrou comigo no meio da estrada e despertou em mim a possibilidade de resignificar os planos e reconstruir a minha própria história. Com a Carol, minha enteada, eu aprendo diariamente que é possível ser mais mesmo quando a vida te diz que é menos.
Para as mães que passarem por aqui, qualquer dia desta semana, que a sua espera sempre valha a pena, porque nela dorme o nosso futuro e que a gente sempre esteja pronta para o amanhã. Que o infinito deste amor lhe seja leve e feliz...
Com amor,
Luisa