segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O (s) censo já passou na sua casa?

Lá em casa, o censo passou logo na segunda semana. Eram 19 horas. O Tomás me perguntou quem subia e eu disse que era uma pessoa que queria saber quem são os brasileiros, como eles vivem e o que eles esperam do Brasil.

Respondi uma dúzia de perguntas para um rapaz e para um Tomás muito interessado na conversa dos adultos e estava encerrada minha obrigação com o IBGE. No final, eu perguntei: é só? Para o que ele respondeu: sim.

Puxa! Eu queria entrar nas estatísticas das mães solteiras, dos que não têm computador em casa e dos que fazem reciclagem de lixo. Mas ele não quis saber disso. Foi embora e deixou eu e o Tomás na nossa rotina noturna banho-tarefa-jantar-conversinha-cama!

No outro dia, meu filho resolve usar o português ampliado em uma conversa sem cabimento:

- Mãe, eu tenho um censo dentro de mim.

- Como assim, filho? Censo?

- Eu tenho um (s)censo, mãe, de que no final tudo dará certo! É um (s)censo de sentimento.


Isso é o que esperamos para o Brasil e para nós, seus moradores convictos, uma esperança renovada.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Paciência

"O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência..."
 
Lenine
 
 
- Eu quero e eu quero agora.


Convivo com isso diariamente, com a minha impaciência e com a impaciência dos que amo e também dos que não amo.

A urgência dos compromissos, uma voz mais estridente, um carro que ultrapassa o seu bruscamente, um filho que não pode esperar, uma ligação que insiste em tocar enquanto você fala, um dedo que não para de atualizar para ver se o email chega, uma caixa de correios lotada de conta, uma agenda que se conta em meses, uma escada com tantos degraus, um menino que crescer rápido, uma ansiedade sem remédio, uma infinidade de sim, um pouco uso de não, uma noite que não se dorme nunca.

Paciência é recurso esgotável e raro, muito raro.

Quando reconheço no outro o dom da paciência, não sei se me admiro ou se me zango. Eu estranho ver quem, no auge do furacão, respira fundo e continua como se nada houvesse acontecido. Eu apresso quem, no meio da vida, pede calma.

Às vezes falta neste meu corpo um pouco mais de alma.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Amanhã é outro dia

- Mãe, o que foi com a tia fulana? Por que ela estava chorando?


- Filho, este é um assunto de adulto.


- Não, mãe. Choro é assunto de criança. Me diga o que aconteceu com ela?


- Filho, você não iria entender. Mas está tudo bem.


- Não, mãe, quem não está entendendo é você. Eu entendo tudo sobre choro e posso ajudar mais do que imagina.


- Ah, é, bonitinho. Como? Me diga.


- Dizendo para ela que vai passar. É só pegar na mão dela assim (pegou na minha), esfregar um pouco e olhar nos olhos dela antes de falar. Eu sei o que eu estou dizendo. Já fizeram isso comigo muitas vezes e passou.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Levando palavras nas mãos



- Mãe, meu dente sangrou.

- O que foi desta vez, Tomás?

- Eu tava rezando.

- Você sempre está rezando e por isso vive com as pernas roxas, as costas lanhadas e por aí vai...

- Não, mãe, é que eu tava rezando quando a professora pediu para a gente abraçar a amiga do lado. Daí meu dente bateu na cabeça dela.

(...)

- Eu bem que disse que essas coisas só acontecem quando a gente tá rezando.

O dente amoleceu e caiu na semana seguinte, seguindo na verdade, a sua vocação.

xxxxx

Estávamos no quarto vendo antigas fotos, eu e minha mãe, quando o pequeno entra invadindo o espaço e agarra um vidro de perfume antigo e borrifa no seu 1,2 metros. (O perfume já foi o meu favorito, mas é muito forte e agora fica na casa materna, para dias sem opção). Foi espirro para tudo quanto é lado.

- Filho, por que você fez isso?

- A professora falou, mãe, que hoje vamos tirar foto e que era para todo mundo ir perfumado. Eu é que não vou sem perfume, né?

Ele ficou perfumado para fotos a semana toda.

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Dia desses sai com ele para resolver pendências no Centro e parei meus olhos em uma loja daquelas antigas com vários utensílios domésticos e está na minha lista comprar uma panelinha de ferro para fazer um brigadeiro. Fiquei namorando a dita quando disse:


- Preciso tanto comprar uma panela nova, filho.


- Mãe, você não sabe que panela velha é que faz comida boa?


Sobre este tópico, nada a declarar. (Será que meu filho fez alguma indireta?)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Sobre metades


Você já foi pela metade? Amigo pela metade? Filho pela metade? Namorado pela metade? Mãe pela metade? Acredito que não. Tem dias que, meio cansado, a gente se embola, fica de preguiça, deixa de fazer, mas mesmo assim, estamos ali 100%. Somos o que somos para os nossos. Imagine se, depois de uma bronca, o Tomás dissesse:

- Meio mãe, me desculpa, vem cá que eu quero falar com você.

Eu correria pela metade ao encontro dele. Não. Não. Isso não é possível. Eu sempre estou ali por inteiro.

Alguém inventou que os irmãos que não dividem a herança genética idêntica são meio irmãos. Dividido ao meio, eles têm o mesmo pai ou a mesma mãe, talvez alguma semelhança, talvez um bocado de história incomum, mas são no jargão comum pela metade.

E, às vezes por obra da vida, são pela metade também nela e não só na linguagem. São pela metade na convivência, nas brigas, nas confidências, nos sonhos, nas intrigas fraternas, nas divisões nem sempre justas, no ensinar a ser mais velho, no aprender a ser caçula.

Eu tenho por obra dos meus pais uma irmã, por inteiro, com quem aprendi a partir dos 6 anos a dividir, a tolerar, a brigar, a me defender, a controlar ciúmes, a esconder tesouros, a defender alguém do mundo. Mas aprendi com ela mais que isso. Aprendi a ser um pouco nela e a tê-la um pouco em mim. E aprendi que, além dela, poderia ter outros irmãos e irmãs, escolhidos a dedo para me fazer companhia em volta ao mundo.

Para o meu pequeno sempre imaginei um mundo cheio de irmãos, mas, por enquanto, ele tem uma irmã menor por parte de pai e a filha do meu namorado, mais velha, para quem ele reserva os seus testes de fraternidade. Ele é um menino com duas meio irmãs.

Com a irmã caçula, ele faz um exercício difícil de resolver as pendências, superar os ciúmes, estimular o afeto em uma agenda não diária. O que faz com que aquelas briguinhas desfeitas antes do sono, para quem vive por inteiro, se tornem rixas maiores. Com a irmã postiça, ele faz projetos de futuro, gasta seu suor para justificar suas vontades, conta os dias do calendário para a chegada do sábado e anda em ovos para não tirar dela o sorriso inteiro.

Dia desses, de novo em trânsito, ele me diz assim:

- Mãe, por que a vida só me deu meio irmãs?

- Filho, você não é feliz assim?

- Mãe, eu quero uma irmã para morar comigo, para brigar comigo, para dividir comigo. Você não pode trazer a Carol para morar comigo? Eu quero por inteiro.

Que duas metades se tornem, na vida real, inteiras para o Tomás. E que ele possa ser, para elas, também um irmão por inteiro.

* Foto do namorido: Carol e Tomás no parque, em cena da vida
como eles queriam que fosse sempre.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A visita na cartomante ou vai que...



Dia desses, no final do expediente, conversava com uma colega que dividia comigo as alegrias de um futuro romance quando ela me disse que já sabia dos detalhes do relacionamento via cartomante. Eu perguntei como tinha sido e ela me relatou os detalhes de uma das muitas sessões de cartas que frequentou.

A vidente disse a ela do novo namorado, de uma ajuda financeira e de uma mudança nos rumos profissionais. As notícias, neste caso, eram boas. Em três mãos de cartas, a dona cartomante tinha dito em detalhes que o que viria era bom. A riqueza de detalhes, que já se confirmavam nos primeiros momentos pós consulta, me deixou impressionada e resolvi saber o quanto era e talvez agendar uma visita ao meu futuro exposto no carteado.

Antes de pegar o telefone da dona cartomante, me veio uma dúvida, logo exposta a colega. “Ela dá notícia ruim também?”. Sim, ela dava notícias não agradáveis também. No caso desta cliente, em tempos remotos, ficou sabendo de uma doença familiar e de problemas na justiça. No final, tudo se resolveu como o previsto pela mágica das cartas. Peguei o telefone e fui embora pensando nos relatos.

E se eu for e as revelações não forem boas? Como diz a propaganda, vai que... vou ser trocada por outra, abandonada pelo filho, desdenhada pela enteada, processada pelos credores, ameaçada pelos vizinhos. E se só sair nas três mãos de jogo cartas de “cruz, credo!”, péssimos agouros ou uma lástima de previsão.

Pensei melhor. Não quero ir à cartomante não. Do jeito que está é uma notícia de cada vez. Meu namorado é o homem da minha vida, meu filho e minha enteada devem mesmo me amar, os credores fazem ameaças singelas via Embratel e os vizinhos nunca interfonaram lá em casa. Depois que eu for lá, vai que...

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

De volta... às aulas!


Então, voltamos hoje às aulas. Para algumas mães e pais, o serviço começou cedo, antes das 7 da matina, tirando os filhos da cama e preparando os mesmos para encarar o segundo semestre. Uma preguicinha, um desânimo, uma vontade de ficar na cama se apodera dos corpos dos pequenos, nesta hora. Mas e se, além disso, eles ficam tristes e reclamam do retorno.
Daí pode ser um problema. Cada dia mais percebo que a relação entre professores e alunos mudou muito, a escola colocou nas costas dos pais a "culpa" por crianças e adolescentes sem limites e desajustados por conta das suas famílias múltiplas, os pais colocaram na conta das escolas a dedicação que nem sempre podem dar aos seus por causa dos empregos acumulados, a falta de tempo e de disposição. A conta matemática não tem boa solução e não é resolvida nas primeiras lições.
Na minha experiência pequena, o Tomás frequenta a sala de aula há exatos cinco anos, percebi que temos que estreitar laços com quem comanda a sala dos meninos para que eles saibam quem somos, o que queremos e o que sabemos. Temos também que ouvir o que os nossos filhos nos dizem e saber que, muitas vezes, pode ser verdade. Os professores são humanos e podem, de um dia para o outro, implicar com quem a gente mais ama. Se a gente implica, imagine eles? E temos que estar presente dia sim, dia também, na porta, no pátio, no caderno de recados, na hora que der. Este é o nosso dever de casa.
A relação na sala de aula não é de comércio. Ninguém vende uma boa educação. Mas é de mão-dupla. Se algo não vai bem com a criança, há que se ter certeza de que o adulto responsável está tendo dificuldades em superar os desafios impostos por um ser humano em formação, sedento por conhecimento, por aventura e por diversão. Se todas as crianças fossem iguaizinhas, bem além dos uniformes, que tipo de sociedade seríamos? Precisaríamos mesmo de um bom professor? Gastaríamos tanto com escola, livros e cultura? Não. Porque as nossas possibilidades seriam finitas.
Que o retorno às aulas seja cheio de novos desafios e com gente disposta a vencê-los!
E que a gente posssa reler sempre Manolito e Mafalda, nas tiras do Quino, dizendo bem mais do que os quadrinhos normalmente permitem!