quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Prefixo




Em 2011, fiz muitas coisas, sobretudo usei o prefixo re. Aquele que vem do latim e pode ter três sentidos: reforço, retrocesso ou repetição.

Foi um ano exuberante em reencontros e reconstruções.

E para que fosse possível, eu precisei repensar, refazer, remexer, reutilizar... Me vi diante de novos papéis, novas responsabilidades, novas dores, novas alegrias e novos desafios.

Vi quem eu amo ir embora semanalmente para somente depois me dizer que veio para ficar, para sempre.

Fiquei noiva, repensei minha vida, refiz planos, redirecionei as energias.

Estive com os meus amigos nos momentos mais felizes e nos mais tristes. Carreguei tijolos em uma reconstrução necessária, amparei quem chorava, rezei por quem adoecia, sonhei com quem sonhava e pedi arrego diante dos muitos medos que sinto. Refiz laços, que estavam desatados pela força do destino, pela crueza da juventude e sorri por dentro.

Mas não estive com todos e foi quando reaprendi lição da minha mãe, dada quando eu era criança em frente às muitas opções da vida, não dá para se ter ou fazer tudo.


Continuei mãe, mas a vida me exigiu mais que isso. Me exigiu a coragem das grandes mães e me mostrou o medo que elas sentem. Fechei os olhos, chorei baixinho e me perguntei se estava certa. Segurei nas mãos do Pai e ele me amparou.

Tive que reorganizar o meu tempo e colocar nele a proporção do meu amor. E, de repente, estar em casa umas horinhas a mais começou a mudar muito a principal relação que tenho na vida: a de mãe e filho. Nem sempre será assim, mas hoje fiz ser possível o impossível para garantir que ele fique bem.

Foram escolhas assim que me fizeram acordar diferente por várias vezes em 2011. Mudei de emprego, mudei de projeto, refleti, priorizei e ganhei. O que mais ganhei foi a certeza de que é possível mudar, que nem sempre precisamos estar no mesmo lugar, que vale o risco, o desatino, a ousadia. Não posso esquecer as coisas que perdemos pelo caminho, mas posso mudar de caminho.

Em 2011, em algumas tentativas, retrocedi para perdoar a mim mesma e aos que mais amo. Mas pensa em algo mais difícil, não existe. O perdão ainda é lição repetida para 2012. Não sou sempre exemplar, não sou sempre generosa, não sou sempre capaz e preciso me perdoar por isso. Se eu pudesse, eu ia refazer o caminho de 2011 para não ferir quem eu amo, mas seria andar contra a corrente e me impedir de aprender que nem sempre estou certa, que quem eu amo também falha e que é sempre possível reconstruir o que fui incapaz de manter.

Rogério é o dono de uma lição que é alvo das minhas reflexões mais íntimas. Às vezes a gente precisa ressignificar as relações. Dar um novo significado perpassa por abrir mão, reconhecer as falhas, se reposicionar e se doar de uma outra forma. Eu entendo, aqui dentro, que ressignificar, é também recomeçar.

E o que é um novo ano senão um recomeço? Então que venha 2012 para ser exatamente aquilo que não imaginei, para me surpreender, me ensinar, me reinventar.

Para quem eu amo muito, um 2012 de redenção!



terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Gratidão

Neste tempo louco em que nós vivemos, em que o relógio parece ser um ascendente corredor de maratona, é mais difícil dar significado a cada momento vivido e o piloto automático é acionado a cada hora. No final de ano, esta percepção para mim fica mais contundente. Aquele cartão de Natal que eu escrevia à mão para as pessoas queridas precisou ser substituído por uma mensagem, um email, um carinho mais distante. Não dá tempo de trocar a embalagem padrão por um laço diferente. Nem todos os amigos queridos serão devidamente abraçados, mesmo aqueles que moram no bairro vizinho. Como diz uma amiga, "haja hoje para tanto ontem".

Foi com este sentimento de que me falta tempo para o que mais gosto e para quem mais gosto que comecei as compras de Natal na véspera da véspera da festa mais linda e mais significativa do ano. Procurei lá nas prateleiras com seus preços exorbitantes um bocadinho de carinho, de delicadeza, de ternura, de compaixão, de milagre, mas impossível achar. E a frustração quase tomou conta de mim, porque além dos meus desejos, ainda deveria atender ao pequeno lá de casa, que este ano não conseguiu registrar seus pedidos.

Primeiro porque queria um novo videogame, fora do orçamento do Papai Noel, se segundo porque gostaria de uma arma de brinquedo, fora das crenças maternas. Na loja de brinquedos, cheguei a tatear a tal arma pensando nos paradoxos da minha decisão, se eu deveria ceder, se isso mudaria algo para ele, mas... por algum motivo, meu coração me disse que mesmo ele tendo contato com outras formas de violência em filmes, desenhos e jogos de videogame, ou mesmo nas brincadeiras que imagina, eu ainda devo reforçar alguns valores.

Foi assim que sai da loja com o Gogoball debaixo do braço e uma bola brilhante debaixo do outro. O brinquedo de pular é uma singela homenagem à minha própria infância que teve um desses brinquedos amarelo e azul que me fizeram pular até criar calos nos pés. Mas o que fez sucesso mesmo foi a bola brilhante, a mais simples e linda do mundo, e o fato do Papai Noel ter chegado tão cedo, pé ante pé, sem fazer barulho e acendendo as luzes da árvore e da esperança dentro de nós.

A exclamação de um ó, vindo da sala de casa, me trouxe a certeza de que pode ser simples, muito mais simples do que queremos. O presente não se faz presente nas caixas empilhadas embaixo da árvore, mas na escolha de quem presenteia, na delicadeza de quem suspira diante da novidade, no abraço apertado e fraterno de quem se ama, no telefonema de agradecimento, no perdão que pedimos ao Pai naquela e em todas as noites.

E foi assim que vivi este Natal, ao lado dos muitos que amo, sentindo falta mais do que sempre dos que estão distantes, rezando pelos meus e celebrando a presença do divino na vida da minha família. Foi uma noite tranquila, de celebração, em especial, aqui dentro. Para finalizar um ciclo de vida, ganhei o melhor dos presentes na manhã do dia 25. Tomás com seus oito anos recém-completos me deu um beijo na manhã de Natal e disse:

- Obrigado!

A gratidão é o presente que devemos a nós mesmos e aos nossos pelos dias que vivemos juntos, pelo pão e pela vida compartilhada, pelos erros corrigidos e perdoados, pelas palavras de consolo e ânimo, pelo amor devotado aos que estão do nosso lado... Que este sentimento ultrapasse a data do Natal sempre!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Na vida, o que faz sentido?


Pergunta que soa oca quando nos deparamos com as notícias da hora do almoço: violência, corrupção, desrespeito, selvageria.

Difícil responder diante da crueldade, do futuro incerto, do medo, da raiva, da frustração.

Muitas vezes difícil de responder quando à nossa volta não encontramos amparo, solidariedade, aceitação, alegria.

Mas dois passos atrás ou a frente são essenciais para que a gente perceba que o sentido está além.

O significado está no que não se conquista, no que não se compreende, no que se perde, no que se chora, no que se desfaz, no que se destrói, no que dói, no que arde.

Mas está, sobretudo e sempre, no que se constrói junto, no que se perdoa, no que se aprende, no que se ensina, no que se refaz, no que se enlaça, no que se sonha, no que se crê, no que se ama...

Na minha contagem regressiva para o Natal, o sentido da vida se renova na esperança na minha família, nos sonhos que tenho para os que eu amo, na alegria simples de estar junto, no poder do perdão e no caminho sempre aberto por quem faz do tempo a eternidade.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Como sinto a amizade



“Cada segundo é tempo para mudar tudo para sempre”, Charles Chaplin

Em uma grande amizade, aprendemos que não importa a idade, o que importa é o que vem do coração. É preciso andar junto, mas nem sempre olhar na mesma direção. É preciso saber ouvir, falar e calar. É preciso doar e perdoar. É preciso acariciar, aconchegar, adiantar. Mas é, sobretudo e imprescindível, saber amar. Que o Tomás e a Carol sigam por este caminho, nem sempre simples, nem sempre exato, mas onde um segundo faz toda a diferença.



*Registro de Tomás e Elisa, sua amiga mais jovem, neste caminho que estão aprendendo a construir.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Meu Natal começou agora



Voltando do médico pela manhã, acompanhada de mãe e filho, ela começa a me contar que o meu afilhado/sobrinho de 8 anos já escreveu sua carta para o Papai Noel. Mais velho que o Tomás um par de meses, ele acredita mais piamente no velhinho do que o meu filhote. Filho de uma família simples, mas muito criativa, pediu a mãe que enfeitasse logo a casa. O que ela fez com disposição. Uma árvores de galhos secos se instalou na sala deles antes de novembro começar.

Mas hoje, na carta com destino ao homem do gorro vermelho, Vítor pediu de presente uma árvore de Natal "de verdade", com um metro e colocou dentro um recorte de jornal com os tradicionais pinheiros de plástico e uma nota de dez reais, caso fosse necessário uma ajudinha.

Era só este o pedido do menino, porque no meio das muitas invenções do comércio, é o símbolo mais pitoresco do Natal que lhe falta. "Porque assim se parece mais com o Natal".

O Natal, com certeza, já chegou lá de várias maneiras. Na simplicidade dos arranjos, no amor das crianças e na sinceridade do pedido.

Agora, vou começar o meu Natal preparando esta árvore, de onde devem brotar lacinhos, estrelas, botinhas e a lembrança do maior amor do mundo.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A perfeição




Meu pequeno continua a fazer uma lista tríplice das pretendentes com quem deseja namorar e se casar lá no futuro bem distante. E hoje, enquanto me contava dos seus afetos e sonhos, ele resolveu dividir comigo um anseio tão comum entre muitos adultos, mas que deve ser resolvido exatamente nesta fase, quando eles ainda são apenas crianças.

- Mãe, quando duas pessoas namoram, ninguém gosta que o homem tenha amizade com outra mulher e nem que a mulher tenha amizade com outro homem, não é mesmo?

- Não, filho. Amizade independe do namoro e podemos ter muitos amigos mesmo namorado.

- Hum... Você tem amigos homens?

- Sim. E o Rogério tem amigas mulheres.

- E você tem ciúmes?

- Filho, às vezes até tenho, mas respeito as amizades que ele tem.

- É. Até os casais perfeitos tem defeitos, não é, mãe?

- Então, somos um casal perfeito?

- Sim. Porque os não perfeitos só tem defeitos.


Para quem quiser conhecer um casal perfeitinho, vale visitar o site do cartunista Marcos Noel: http://www.giekim.com/p/tirinhas.html


sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Inspiração



Lá em casa, na noite que não termina enquanto o trabalho se acumula para todos os lados, fechei o notebook exausta e disse:




- Hoje não dá mais. Estou sem inspiração!



- Inspiração para o que, mãe?



- Para escrever um texto.



- Para que você precisa de inspiração?



- Meu filho, para contar a história de uma forma legal, que todos queiram ler.



- Mãe, neste texto, você não tem que contar a verdade?



- Tenho!



- Então, a verdade só tem um jeito de ser contada. Às vezes, mãe, eu não te entendo.


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É... A verdade não é uma só. Aprendi isso na profissão. Já na vida, tendemos a achar que sempre existe uma só verdade e muitas vezes carregamos fardos demais por isso.

Tomás ainda não sabe o que é inspiração, mas logo irá aprender.

E quem sabe antes deste dia, eu reencontro a minha para fazer agrados às pessoas queridas e escrever textos para um blog abandonado.

Enquanto isso, muitas doses de boas e más verdades andam me cutucando por aqui.

Bom final de semana!

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Meu lugar



Vou voltar


Sei que ainda vou voltar

Para o meu lugar

Foi lá e é ainda lá

Que eu hei de ouvir cantar

Uma sabiá”


Nesta segunda, como que para dizer que a primavera está chegando, recebi um presente cheio de emoção e carinho, que me fez passar a noite perambulando em sonhos e me imaginando feliz por uma recordação que ficou apagada nos meus poucos anos de vida. A prima Eleonora Dias, a quem não vejo desde esta época, me enviou por email as fotos do dia em que chegamos a Porto Alegre, no fim do exílio dos meus pais. A data imprecisa no mês de outubro de 1979 guardou o sorriso mais bonito que já avistei do meu pai. Não era para ser diferente. Foram quase dez anos fora de casa, da terra da sua família, do amor dos seus. Neste período, não perdeu só o sonho, a convivência, os nascimentos dos sobrinhos e todas as coisas que nos acontecem em uma década, perdeu também o meu avô Armando, meses antes do seu retorno. Para sanar esta dor enorme das palavras que os dois não trocaram, de uma despedida que nunca aconteceu, o primeiro lugar que minha mãe e meu velho visitaram foi Porto Alegre, mais precisamente no sítio da família, no Lami.

Desta viagem que durou pouco mais de uma semana, minha avó Talita, meus tios e meus primos foram os responsáveis por fazer o meu pai sorrir de novo. Em sua casa, meu pai que também se chamava Armando, tinha o apelido de Negrão, talvez porque fosse o mais moreno dos cinco filhos. Era o terceiro da prole e o único, dentre eles, torcedor do Grêmio. Esta foi apenas uma das muitas diferenças que tiveram em vida. Mas que, para ele, sempre foram pequenas demais. Mesmo depois, morando a tantos quilômetros de distância, meu pai nunca perdeu o Rio Grande do Sul de vista. Era para lá que ia em todas as férias até adoecer. Era para lá que ia também, depois de adoecer, em pensamentos remotos e confusos. Ao ouvir o nome de um dos irmãos ou do rio Guaíba, seus olhos brilhavam.

Deste amor por sua terra, ganhei por muitos anos no registro o nome da cidade como se fosse a minha natal. Só depois de uma compreensão maior da lei, que Bruxelas se tornou minha cidade natal, mesmo eu sendo brasileira. Mas na cumplicidade matreira, meu pai me dizia gaúcha.

Dias depois da viagem registrada nestas fotos, eles seguiram a caminhada, comigo a tiracolo, por Curitiba, Goiânia e Porto Nacional onde se encontravam espalhados os familiares de minha mãe, este é um outro pedaço desta longa história. Naquele ano em que voltamos, meus pais foram muito felizes, como disse minha mãe: “Mais felizes do quem em todos os dias das nossas vidas”. O lugar do meu pai sempre foi ao lado dos que amou tanto. O da minha mãe se fez onde criou novos laços e onde ergueu sua família. Para viver juntos, nem sempre puderam ouvir o sabiá cantar, mas ele estava lá...

 

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Padrinhos mágicos


Entre as fixações do Tomás, está o desejo de ter padrinhos mágicos. Como o personagem Timmy Turner, ele gostaria de estar ladeado por estes seres de outro mundo capaz de lhe realizar desejos dos mais sensíveis aos mais absurdos. Estão entre os pedidos deste meninote de sete anos um mês de férias para cada um de escola, um cachorro cor de areia, uma vida sem contas de horas, dias ou dinheiro, uma viagem para outro planeta.

E, a cada dia, a lista muda. Muda de acordo com suas conveniências ou dificuldades. Mas sempre existe, nesta lista, um pedido muito especial. Para o qual seus olhos brilham e o meu coração amolece. E, com certeza, é um pedido que não precisa de padrinhos mágicos. Precisa somente da sua pureza infantil para chegar aos ouvidos de quem precisa.

Tomás tem um amigo querido, de quem já falei aqui, chamado Pedro. Com oito anos, é meu sobrinho de coração e é também personagem de muitas histórias vividas na infância do Tomás. Com o Pedro, meu pequeno aprende muitas coisas. Os dois brincam e brigam na mesma proporção. Mudam de time, torcem ao contrário, trocam figurinhas, afetos e, às vezes, desafetos. Mas seguem lado a lado, não pela amizade que tenho pela Carla, mãe do Pedro, mas pela amizade que construíram e que, na minha esperança, se tornará mais sólida com o passar dos dias.

É do Pedro o pedido mais importante do Tomás para os padrinhos mágicos.

- Mãe, vou pedir para o Pedro poder andar...

- Filho, por quê? O Pedro é uma criança muito feliz.

- Mãe, mas eu quero que ele possa jogar bola.

- Vocês já jogam do jeito de vocês.

- Mas eu quero que ele seja, assim, o melhor jogador do mundo.

Para este pedido, eu preciso diariamente alargar o meu discurso para contemplar a legitimidade do desejo do Tomás e ensinar a ele que existem caminhos possíveis. Também preciso aprender com ele a ter esperança de um jeito que só as crianças têm.

Hoje cedo, vendo o Bom dia Brasil, ele me chama e diz assim:

- Já tenho a solução, já que os padrinhos mágicos não existem mesmo.




* Na foto, Pedro ladeado de seus amigos mágicos: Tomás e Carol. Registro da tia coruja!

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Protesto


Estamos, eu e Tomás, em uma rotina atribulada de ir ao médico e fazer exames. Das agulhadas, Tomás tem pavor, mas também não gosta da sala de espera, pois o “filho, hoje temos que ir ao médico” significa menos tempo para brincar. Quando pequeno, o “tio Gusmão”, o pediatra que o viu nascer, lhe fazia graça com balões e pirulitos no final da consulta. Agora, é muito pouco para atraí-lo ao mundo dos jalecos e estetoscópios.


Quando anunciei, logo na segunda cedo, a programação da semana que inclui uma consulta na quinta, ele disse:

- Mãe, esta médica nova consegue colocar asas em crianças?

- Não, Tomás. Para quê você gostaria de asas?

- Para não chegar atrasado na escola. O trânsito no céu é bem melhor... E essa médica sabe fazer chover?

- Também não, filho. Médicos curam doenças.

- Pois a minha doença, mãe, é este calor.

- Isso se resolve com o tempo, filho.

- Mãe, não adianta de nada ir nestes médicos. Eles não resolvem minhas questões mais urgentes!


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Eclipse



Com a chegada à metade final do ano, a maioria de nós dá sinais evidentes do cansaço. Quem pensa que é diferente para as crianças se engana. Os pequenos, mesmo depois das férias, se doem pelos horários a cumprir, pelo volume de tarefas, pelas provas e pelo cansaço em forma de irritação no comportamento dos pais.
Lá em casa, não é diferente. A poucos dias de uma grande mudança em nossa vida, quando terei mais tempo para ficar com ele, Tomás se mostra esgotado ao ser acordado antes das 7 da manhã, com o café da manhã engolido e com os horários sempre apertados pelo meu passo.
Sexta-feira, ao levantar, me disse:

- Mãe, bem que podia acontecer um eclipse total e de 24 horas.

- Para quê?

- Para que pudéssemos ficar quietinhos em casa sem olhar para fora.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Sobre todas as coisas



“Há um menino, há um moleque, morando dentro do meu coração...

Toda vez que o adulto balança, ele vem e me dá a mão”.

Os dias de agosto são os mais corridos do ano. Não sei se é o clima, o vento que varre todas as coisas, mas a rotação da Terra aumenta e os pensamentos voam.

Outro dia com Romeu, o gato adotado pela família, eu observei para Tomás as características do bichano, sempre derrubando enfeites e atropelando os passantes como um trem.

- Tomás, este gato é mesmo de capricórnio. Só faz o que quer e é dengoso demais.

- Mãe, o que é ser de capricórnio?

- É o signo de quem nasce entre dezembro e janeiro, filho.

- Ah... E o meu é qual mesmo?

- Sagitário, Tomás.

- Não, mãe... É outro o nome.

(Neste momento, voando pensei que ele iria assumir o 13º signo).

- Católico, mãe. Eu sou católico.

x-x-x-x

No carro, é que seguimos para os destinos e lá Tomás viaja como quem irá chegar em outra parte do universo.

- Mãe, sabe quem decide se iremos para o céu?

- Quem, Tomás?

- Papai Noel. Ele sabe de tudo o que fazemos de certo e errado. E no final manda uma cartinha para Deus contando sobre todas as coisas.

- E você acha o que disso?

- Acho que ele é bonzinho, mas muito fofoqueiro.

x-x-x-x

Ainda na mesma rua, neste tempo seco de agosto, reclamei do cheiro das baratas que sobe pelo esgoto.

- Mãe, você sabia que podia também ser uma barata?

- Como assim, filho?

- Mãe, a gente vem para o mundo e usa um corpo que Deus quiser. Mas o que é nosso mesmo é a alma.

(Silêncio)

- Mãe... Você não preocupe com as baratas. Daqui elas só levarão a alma.



sábado, 13 de agosto de 2011

Para ser pai



Amanhã começa uma nova semana com o Dia dos Pais. Para mim, é dia de saudades e muita reflexão. Neste domingo, eu guardo um tempo para me lembrar dos lugares onde estive com meu pai, das palavras ditas e aquelas que não foram ditas, guardadas por um coração imaturo, que nem sempre sabe falar de amor. De olhos fechados, já sei quais imagens vão passar pela minha mente. O passeio de bicicleta em volta do Clube de Engenharia, as mãos repletas de pitangas amassadas trazidas em passeio no sítio de minha avó, o colo magro e quentinho em um novo ano passado na estrada, as linhas de anzol embaralhadas em uma pescaria que não vingou... E depois de visitar este tempo passado, quero resistir às lágrimas e sorrir por ter tantas lembranças para me alimentar neste futuro incerto que se apresenta a cada dia. O que construí com meu pai, com muita dificuldade, é um dos meus maiores patrimônios. E ainda é, depois de três anos da sua morte, um dos meus terrenos mais férteis.


Quero acreditar que Tomás, com outro caminho, também consiga formar este patrimônio, que o faça crescer diante dos desafios da vida. Dia desses, eu fazia um curativo em seu braço, quando ele me disse:

- Amor de mãe é que faz crescer.

Sim. Ele disse isso e eu vou guardar para sempre esta singela declaração deste menino de sete anos que tem tanto de mim, mas tem tanto do meu pai. Eu agradeci e completei.

- Amor de mãe e amor de pai, filho.

Foi então que ele me disse.

-Não, mãe. Amor de pai é para “homenizar”.

- Como assim, filho¿

- O pai é que faz o menino se tornar homem.

- E o que o homem faz, filho¿

- Joga bola, pesca, troca lâmpada e mais... Mas não posso te contar, mãe.

- Mas eu quero saber, filho.

- O pai tem que ensinar o filho um dia a ser pai e isso é muito importante.

“Homenizar” é tarefa árdua para os pais que amanhã comemorarão o seu dia. Tomás dividirá o seu domingo e seu desejo de aprender com seu pai e com seu padrasto. E eu vou agradecer ao meu pai, bem baixinho, por ter me tornado mais humana e me ensinado que o amor é o maior trunfo do homem e da mulher, é o que persevera quando formamos nossa família. Aos pais que se dedicam a “homenização”, meu carinho e admiração. Aos filhos, a bênção de serem amados e queridos pelos seus, sejam eles quem for.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Pelos seus olhos




Quando se vive com uma criança, é bom de vez em quando se permitir olhar o mundo pelos olhos dela. Não porque haja magia em seu olhar, mas porque do seu ângulo, muitas vezes, o mundo é belo e maior do que quando olhamos da nossa estatura mediana.

Ao chegar da última viagem de férias (desta vez ele foi ao Pernambuco com a madrinha), Tomás me chama no canto e diz:

- Mãe, você já prestou atenção nas moças aéreas?

- Você quer dizer aeromoças, filho?

- Sim. Estas que trabalham no céu.

- Hum... O que tem com elas?

- São todas lindas. Sabe por quê?

Rindo das moças aéreas, eu disse que não.

- Porque no céu, mãe, todos são lindos. Principalmente as moças aéreas.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Expressões

 

Tomás é o rei dos ditados e das expressões. Como ele mesmo confessa, é a parte do português que ele mais gosta. Então, não muito raro, ele me sai com um “antes tarde do que nunca”, “num piscar de olhos”, “doidinho da silva”, “nunca diga nunca” e “promessa é dívida”. Mas, de vez em quando, ao seu bem entender usa os ditados e expressões populares da nossa língua para defender seu ponto de vista e desfazer os nós que se apresenta à sua frente.
Dia desses, enquanto enfrentávamos uma situação mais difícil para mim do que para ele, o pequeno me saiu com essa:
- Mãe, não se preocupe, “tudo que começa bem termina bem”.
- Ah, filho... Não é assim o ditado.
- É, sim. Sei porque sou o autor e, entre nós, tudo começou muito bem.
Sim, entre eu e Tomás, mesmo nos trancos e barrancos de uma gravidez não planejada, começou tudo muito bem. Porque onde há amor, há sempre felicidade. Deste ditado, sou autora e testemunha diária.