quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Padrinhos mágicos


Entre as fixações do Tomás, está o desejo de ter padrinhos mágicos. Como o personagem Timmy Turner, ele gostaria de estar ladeado por estes seres de outro mundo capaz de lhe realizar desejos dos mais sensíveis aos mais absurdos. Estão entre os pedidos deste meninote de sete anos um mês de férias para cada um de escola, um cachorro cor de areia, uma vida sem contas de horas, dias ou dinheiro, uma viagem para outro planeta.

E, a cada dia, a lista muda. Muda de acordo com suas conveniências ou dificuldades. Mas sempre existe, nesta lista, um pedido muito especial. Para o qual seus olhos brilham e o meu coração amolece. E, com certeza, é um pedido que não precisa de padrinhos mágicos. Precisa somente da sua pureza infantil para chegar aos ouvidos de quem precisa.

Tomás tem um amigo querido, de quem já falei aqui, chamado Pedro. Com oito anos, é meu sobrinho de coração e é também personagem de muitas histórias vividas na infância do Tomás. Com o Pedro, meu pequeno aprende muitas coisas. Os dois brincam e brigam na mesma proporção. Mudam de time, torcem ao contrário, trocam figurinhas, afetos e, às vezes, desafetos. Mas seguem lado a lado, não pela amizade que tenho pela Carla, mãe do Pedro, mas pela amizade que construíram e que, na minha esperança, se tornará mais sólida com o passar dos dias.

É do Pedro o pedido mais importante do Tomás para os padrinhos mágicos.

- Mãe, vou pedir para o Pedro poder andar...

- Filho, por quê? O Pedro é uma criança muito feliz.

- Mãe, mas eu quero que ele possa jogar bola.

- Vocês já jogam do jeito de vocês.

- Mas eu quero que ele seja, assim, o melhor jogador do mundo.

Para este pedido, eu preciso diariamente alargar o meu discurso para contemplar a legitimidade do desejo do Tomás e ensinar a ele que existem caminhos possíveis. Também preciso aprender com ele a ter esperança de um jeito que só as crianças têm.

Hoje cedo, vendo o Bom dia Brasil, ele me chama e diz assim:

- Já tenho a solução, já que os padrinhos mágicos não existem mesmo.

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* Na foto, Pedro ladeado de seus amigos mágicos: Tomás e Carol. Registro da tia coruja!

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Protesto


Estamos, eu e Tomás, em uma rotina atribulada de ir ao médico e fazer exames. Das agulhadas, Tomás tem pavor, mas também não gosta da sala de espera, pois o “filho, hoje temos que ir ao médico” significa menos tempo para brincar. Quando pequeno, o “tio Gusmão”, o pediatra que o viu nascer, lhe fazia graça com balões e pirulitos no final da consulta. Agora, é muito pouco para atraí-lo ao mundo dos jalecos e estetoscópios.


Quando anunciei, logo na segunda cedo, a programação da semana que inclui uma consulta na quinta, ele disse:

- Mãe, esta médica nova consegue colocar asas em crianças?

- Não, Tomás. Para quê você gostaria de asas?

- Para não chegar atrasado na escola. O trânsito no céu é bem melhor... E essa médica sabe fazer chover?

- Também não, filho. Médicos curam doenças.

- Pois a minha doença, mãe, é este calor.

- Isso se resolve com o tempo, filho.

- Mãe, não adianta de nada ir nestes médicos. Eles não resolvem minhas questões mais urgentes!


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Eclipse



Com a chegada à metade final do ano, a maioria de nós dá sinais evidentes do cansaço. Quem pensa que é diferente para as crianças se engana. Os pequenos, mesmo depois das férias, se doem pelos horários a cumprir, pelo volume de tarefas, pelas provas e pelo cansaço em forma de irritação no comportamento dos pais.
Lá em casa, não é diferente. A poucos dias de uma grande mudança em nossa vida, quando terei mais tempo para ficar com ele, Tomás se mostra esgotado ao ser acordado antes das 7 da manhã, com o café da manhã engolido e com os horários sempre apertados pelo meu passo.
Sexta-feira, ao levantar, me disse:

- Mãe, bem que podia acontecer um eclipse total e de 24 horas.

- Para quê?

- Para que pudéssemos ficar quietinhos em casa sem olhar para fora.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Sobre todas as coisas



“Há um menino, há um moleque, morando dentro do meu coração...

Toda vez que o adulto balança, ele vem e me dá a mão”.

Os dias de agosto são os mais corridos do ano. Não sei se é o clima, o vento que varre todas as coisas, mas a rotação da Terra aumenta e os pensamentos voam.

Outro dia com Romeu, o gato adotado pela família, eu observei para Tomás as características do bichano, sempre derrubando enfeites e atropelando os passantes como um trem.

- Tomás, este gato é mesmo de capricórnio. Só faz o que quer e é dengoso demais.

- Mãe, o que é ser de capricórnio?

- É o signo de quem nasce entre dezembro e janeiro, filho.

- Ah... E o meu é qual mesmo?

- Sagitário, Tomás.

- Não, mãe... É outro o nome.

(Neste momento, voando pensei que ele iria assumir o 13º signo).

- Católico, mãe. Eu sou católico.

x-x-x-x

No carro, é que seguimos para os destinos e lá Tomás viaja como quem irá chegar em outra parte do universo.

- Mãe, sabe quem decide se iremos para o céu?

- Quem, Tomás?

- Papai Noel. Ele sabe de tudo o que fazemos de certo e errado. E no final manda uma cartinha para Deus contando sobre todas as coisas.

- E você acha o que disso?

- Acho que ele é bonzinho, mas muito fofoqueiro.

x-x-x-x

Ainda na mesma rua, neste tempo seco de agosto, reclamei do cheiro das baratas que sobe pelo esgoto.

- Mãe, você sabia que podia também ser uma barata?

- Como assim, filho?

- Mãe, a gente vem para o mundo e usa um corpo que Deus quiser. Mas o que é nosso mesmo é a alma.

(Silêncio)

- Mãe... Você não preocupe com as baratas. Daqui elas só levarão a alma.



sábado, 13 de agosto de 2011

Para ser pai



Amanhã começa uma nova semana com o Dia dos Pais. Para mim, é dia de saudades e muita reflexão. Neste domingo, eu guardo um tempo para me lembrar dos lugares onde estive com meu pai, das palavras ditas e aquelas que não foram ditas, guardadas por um coração imaturo, que nem sempre sabe falar de amor. De olhos fechados, já sei quais imagens vão passar pela minha mente. O passeio de bicicleta em volta do Clube de Engenharia, as mãos repletas de pitangas amassadas trazidas em passeio no sítio de minha avó, o colo magro e quentinho em um novo ano passado na estrada, as linhas de anzol embaralhadas em uma pescaria que não vingou... E depois de visitar este tempo passado, quero resistir às lágrimas e sorrir por ter tantas lembranças para me alimentar neste futuro incerto que se apresenta a cada dia. O que construí com meu pai, com muita dificuldade, é um dos meus maiores patrimônios. E ainda é, depois de três anos da sua morte, um dos meus terrenos mais férteis.


Quero acreditar que Tomás, com outro caminho, também consiga formar este patrimônio, que o faça crescer diante dos desafios da vida. Dia desses, eu fazia um curativo em seu braço, quando ele me disse:

- Amor de mãe é que faz crescer.

Sim. Ele disse isso e eu vou guardar para sempre esta singela declaração deste menino de sete anos que tem tanto de mim, mas tem tanto do meu pai. Eu agradeci e completei.

- Amor de mãe e amor de pai, filho.

Foi então que ele me disse.

-Não, mãe. Amor de pai é para “homenizar”.

- Como assim, filho¿

- O pai é que faz o menino se tornar homem.

- E o que o homem faz, filho¿

- Joga bola, pesca, troca lâmpada e mais... Mas não posso te contar, mãe.

- Mas eu quero saber, filho.

- O pai tem que ensinar o filho um dia a ser pai e isso é muito importante.

“Homenizar” é tarefa árdua para os pais que amanhã comemorarão o seu dia. Tomás dividirá o seu domingo e seu desejo de aprender com seu pai e com seu padrasto. E eu vou agradecer ao meu pai, bem baixinho, por ter me tornado mais humana e me ensinado que o amor é o maior trunfo do homem e da mulher, é o que persevera quando formamos nossa família. Aos pais que se dedicam a “homenização”, meu carinho e admiração. Aos filhos, a bênção de serem amados e queridos pelos seus, sejam eles quem for.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Pelos seus olhos




Quando se vive com uma criança, é bom de vez em quando se permitir olhar o mundo pelos olhos dela. Não porque haja magia em seu olhar, mas porque do seu ângulo, muitas vezes, o mundo é belo e maior do que quando olhamos da nossa estatura mediana.

Ao chegar da última viagem de férias (desta vez ele foi ao Pernambuco com a madrinha), Tomás me chama no canto e diz:

- Mãe, você já prestou atenção nas moças aéreas?

- Você quer dizer aeromoças, filho?

- Sim. Estas que trabalham no céu.

- Hum... O que tem com elas?

- São todas lindas. Sabe por quê?

Rindo das moças aéreas, eu disse que não.

- Porque no céu, mãe, todos são lindos. Principalmente as moças aéreas.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Expressões

 

Tomás é o rei dos ditados e das expressões. Como ele mesmo confessa, é a parte do português que ele mais gosta. Então, não muito raro, ele me sai com um “antes tarde do que nunca”, “num piscar de olhos”, “doidinho da silva”, “nunca diga nunca” e “promessa é dívida”. Mas, de vez em quando, ao seu bem entender usa os ditados e expressões populares da nossa língua para defender seu ponto de vista e desfazer os nós que se apresenta à sua frente.
Dia desses, enquanto enfrentávamos uma situação mais difícil para mim do que para ele, o pequeno me saiu com essa:
- Mãe, não se preocupe, “tudo que começa bem termina bem”.
- Ah, filho... Não é assim o ditado.
- É, sim. Sei porque sou o autor e, entre nós, tudo começou muito bem.
Sim, entre eu e Tomás, mesmo nos trancos e barrancos de uma gravidez não planejada, começou tudo muito bem. Porque onde há amor, há sempre felicidade. Deste ditado, sou autora e testemunha diária.