domingo, 19 de dezembro de 2010

Procurando... um Noel verdadeiro!




No primeiro Natal de sua vida, Tomás tinha apenas 10 dias e vestido de vermelho, enfeitou mais do que curtiu a noite feliz. Mas depois disso, se tornou um verdadeiro apreciador da data. Eu sempre brinco que ele antecipou sua chegada para curtir o “Natal”. E assim tem sido, desde que se viu menino, com 1 aninho, desembrulhando uma piscina de bolas que coloriu a festa natalina de 2004. Desde então, virou tradição montar árvore juntos, ver as luzes da cidade, ir á missa e visitar o Papai Noel.

Quando pequeno, evitava ir a mais de um shopping para que ele não se confundisse ao ver tantos Noéis espalhados. Mas agora, aos 7 anos, fica difícil contornar o seu olhar atento a cada Papai Noel que aparece na televisão ou sentado no trono do shopping. Então, começado o mês de dezembro fomos em busca do Noel para que ele falasse do seu ano e fizesse seus pedidos.

Então, começou a peregrinação. No primeiro Noel, veio o seguinte comentário:

- Mãe, este não é o verdadeiro. Olha bem para a barba dele e ele nem está de bota!

No segundo, achei que ia dar certo. Barba verdadeira, bom papo, roupa nobre, três reais para tirar foto e a seguinte constatação:

- Mãe, Papai Noel tem uma voz diferente. Este aí não sabe nem fazer “hohohoho”!

No terceiro, já estava descrente. Mas eis que um velhinho de olhar carinhoso fisgou o pequeno.

- Finalmente, achei o Papai Noel. Ufa! Achei que ele só tivesse deixado substitutos aqui!

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Noites insones



Para alegria, sono.


Para tristeza, insônia.

Inconseqüência de um corpo que sente, mas não raciocina.

Se alegre, quero dormir pouco.

Se triste, quero o prazer de rever a paz enquanto sonho.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Na televisão do céu



- Mãe, no céu, tem televisão?

- Creio que não filho...

- Melhor assim, porque senão meu vô ficaria triste demais.

- Por que?

- É que o presidente torceu para o Corinthians que nem eu.

****
O Tomás já sabe que meu pai gostava do Lula, mas não sabe é que, no futebol, ele sempre foi mais ele. Era solitário na torcida pelo tricolor carioca em uma casa de botafoguenses e flamenguistas. Dizia seguir Paulinho da Viola e Chico Buarque em sua escolha. Se estivesse por aqui, ia vibrar com o suor dispensado pelos jogadores em busca deste título e fazer "troça" de quem quase beijou a taça.

Eu, minha mãe e o Tomás, assim como o Lula, tivemos que aceitar a vitória justa do Flu, que fez um campeonato excelente e vamos ter que esperar para gritar campeão no próximo ano com o Corinthians, o Flamengo, o Grêmio ou Vila Nova.

A gente não gosta de apostar as fichinhas em um só cofre... e assim nos divertimos mais com essa brincadeira de gente grande chamada futebol.

Também aposto minhas fichas como televisão no céu deve ter cores mais coloridas do que essa que filtra as emoções da vida.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Neste Natal, doe vida!


Recebi um email na noite de ontem inesperado e gostoso de ler. Quase como uma oportunidade para este mês de Natal que já invadiu as ruas, mas precisa mesmo é invadir o coração. A amiga virtual Alê, do blog Eu, meus botoes e as teclas, pediu para eu divulgar a campanha “Para doar é só falar” sobre doação de órgãos. A irmã dela, Giselle Rocha , é uma das muitas pessoas transplantadas no Brasil, mas cerca de 60 mil ainda esperam por uma chance.

Lá em casa, somos todos doadores de órgão por acreditar que a solidariedade independe de crença e que um gesto tão pequeno pode fazer uma grande diferença. Minha prima Ana Cristina foi beneficiada por duas vezes em sua luta contra uma diabetes grave. Mesmo não tendo resistido, sentiu uma felicidade enorme por ser escolhida para receber este presente. A gratidão de quem recebe esta nova chance é maior do que um “obrigado”. É algo que não tem preço.

Mas voltando ao email da Alê, a campanha do site Estenda a Mão busca a adesão da população na campanha de doação de órgãos. Para participar, basta criar um vídeo de 30’ sobre doação de órgãos. Os mais votados terão prêmios e serão divulgados em uma campanha nacional sobre o tema. A Giselle fez o dela com amigos e ficou muito bacana. Então, quero de presente de Natal o seu voto neste link aqui: http://bit.ly/eevIHl.

Um presente que pode fazer a diferença real para a vida de alguém!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Ideias para Monteiro Lobato



Falei no post anterior que íamos gastar umas noites lendo o livro “Reforma da Natureza”, do Monteiro Lobato, e também para curar a febre e a dor de garganta do pequeno. Chegamos, ontem, ao capítulo da reforma da vaquinha Mocha. Emília e sua companheira Rã começam a pensar melhorias para a mamífera, como o rabo no meio das costas para espantar melhor as moscas, um chifre com protetores móveis e torneiras no lugar de parte das tetas. Eu e Tomás rimos da figura desolada de Mocha com tantas mudanças, quando ele disparou:


- Seria bom se meninos tivessem torneirinhas para fazer xixi, mamãe!

- Por quê?

- A gente não ia sujar o vaso e nem precisava interromper a brincadeira para ir ao banheiro. Era só apertar a torneira.

Foi dormir rindo pensando que, como Emília, tem certas coisas que podiam ser bem melhores.

Eu também acho. Crianças podiam não adoecer e adultos podiam voltar a ter 6 anos quando as coisas ficassem difíceis.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Reinvenção de Monteiro Lobato



Nem sempre leio para o Tomás. Confesso esse lapso para descobrir se alguma das minhas leitoras ocultas se entrega à preguiça ou às tarefas do lar quando o filho chega com um livro debaixo do braço. Mas, vez em quando, me entrego a tarefa que sempre rende boas risadas e, no final, um filhote dormindo tranqüilo em sonhos coloridos com animais falantes, terras distantes e finais sempre felizes.

Neste final de semana, tive motivo a mais para ler livros com o pequeno, que já conhece as palavras, mas adora que alguém lhe faça este dengo. Ele está dodói e, nestes dias assim, ganha direito de ganhar uma beira na minha cama para eu controlar a temperatura. Escolheu para nos fazer companhia o livro “Reforma da Natureza”, do Monteiro Lobato, que li quando era criança e que ele ganhou da minha querida madrinha.

Para quem cresceu e se esqueceu da história, vale relê-la aqui. Logo no começo Dona Benta e Tia Nastácia seguem em comitiva para Europa com a missão de ajudar na construção da paz mundial. Mas Emília decide ficar, por motivos que envolver a reforma da natureza, e a uma certa altura, Narizinho alerta para o risco das peraltices da boneca e afirma: Quer ficar sozinha eu sei para que é - para sapecar à vontade.

Eu pergunto ao pequeno, para acompanhar até que ponto ele entende:

- O que será que Emília vai fazer, filho?

- Hummm. Se fosse na cidade, ia fazer uma balada.

- Balada? Como assim?

Com bracinhos para cima, ele faz um movimento de ombros e imita uma destas músicas da moda.

- Isso é uma balada. Agora, no sítio, mãe, acho que dá para ela soltar as galinhas do galinheiro.


O certo é que vamos ocupar algumas noites com a leitura e com o dodói. Vamos nos divertir juntos, o que é sempre registro da nossa cumplicidade acalentada em noites febris e em dias nem sempre ensolarados.


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Onde está a menina?

“Em minha casa, reuni brinquedos pequenos e grandes, sem os quais não poderia viver. O menino que não brinca não é menino, mas o homem que não brinca perdeu para sempre o menino que vivia nele e que lhe fará muita falta”.
Pablo Neruda



Ainda brinco em um dia qualquer com um jogo estipulado pelas crianças. Às vezes faço formigas nas costas do Tomás pela manhã e em tarde muito ensolarada, sou capaz de jogar bola com meu filho ou competir na piscina o nado mais rápido. Mas é pouco, muito pouco, porque me pesa o peso de não poder rodopiar, porque me pesa o peso de cobrar boa postura, porque adormeceu em mim uma menina risonha que adorava jogos de azar, que temia monstros do escuro e que inventava futuros distantes.

Há que se dosar na adultice um pouco de meninice, não da infantilidade tão comum nestes dias rasos de querer ser mais do que se pode. Mas é preciso ter, na alma, em canto de fácil acesso, a agilidade do empinar da pipa, a gargalhada da piada sem graça, o esconderijo nunca descoberto, a sujeira mais limpa da terra vivida, a coragem do primeiro passeio de bicicleta, a pureza da descoberta da morte das primeiras cigarras.

Em minha casa, recordações da infância estão nas fotos, nos brinquedos que enfeitam estantes e nos deixados pelo Tomás em qualquer canto. E, às vezes, ao cantar uma música, ele me leva para lá, para o tempo ido, de onde volto logo para regular o volume da sua voz ou avisar do próximo compromisso.

Por que é tão longe quando devia ser tão perto? Por que se faz difícil essa menina que em mim habita? Por que nos distanciamos do que somos para sermos adultos? Por que brincar se tornou extremamente difícil?

Foto: avidadebani.blogspot.com

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Sobre saudade




Saudade está entre as mais belas palavras da nossa língua. Sem tradução para muitos, é tema de poesia, canção, pintura e tudo mais que envolva emoção e cabe bem nas sete letras que a constroem, assim como nas vírgulas que vamos deixando no meio do caminho.


- Mãe, estou com saudade do meu amigo Arthur.

- Por quê?

- Saudade, mãe, não é palavra. É sentimento. Não tem explicação.

(...)


- Mãe, você tem saudade do que?


- A lista é longa, filho.

(Eu tenho saudade das mãos do meu pai, dos vizinhos da rua 147, do colo da minha madrinha, da minha professora de português, dos almoços disputados pelos primos no domingo, dos biscoitos da minha avó, da elegância da outra avó, do cheiro de mato das férias de janeiro, do sorvete delicioso do Beijo Frio, de passar domingos na ilha, de trocar roupas com amigas, de colecionar papéis de carta, de andar pelas ruas do setor Sul cantarolando, de ocupar as praças com meus sonhos sem medo, de dormir no trajeto para a aula, de rir de mim mesma, de conhecer os cafés da cidade, de acreditar no impossível, dos amigos que foram morar longe, de amanhecer o dia criando projetos, de ouvir o chorinho do Tomás no berço, de beijos inesquecíveis.)

- Filho, a lista é pequena. Eu tenho saudade do tempo.


Foto do blog: http://expectativasdesleaiis.blogspot.com/

domingo, 21 de novembro de 2010

Contrata-se serviços para o Papai Noel



Falta pouco mais de um mês, mas o Natal chegou bem antes, com enfeites em lojas, propagandas na TV e negociações intermináveis sobre uma lista de presentes igualmente interminável. A lista é feita desde cedo lá em casa, mas está sujeita a alterações e segue algumas regras. As alterações dependem do humor do Papai Noel, do décimo terceiro e da criatividade materna e as regras dizem respeito à qualidade do presente. Tem que ser brinquedo ou livro e nenhum item eletrônico, pelo menos nesta fase tão encantada da vida.

- Mãe, quero ganhar de Natal um xbox!

- Filho, você sabe que o Papai Noel não traz videogames para as crianças. Escolha outra coisa.

- Mas, mãe, eu quero tanto...

- Tomás, já falamos sobre isso, o Papai Noel tem uma fábrica de brinquedos e livros, os mais bonitos de todo o mundo. Não é justo pedir que ele comece as fazer computadores, videogames e essas outras coisas eletrônicas.

- Eu sei, mãe. Ele é velhinho e fica difícil, mas eu tive uma grande idéia. E se o Papai Noel contratasse uma empresa para fazer os videogames¿

- Uma terceirização, você quer dizer. Ai, filho... Como o Papai Noel ia ter dinheiro para este contrato¿ Ele não é rico não.

- Mãe, ele não precisa de dinheiro. Quem tem coragem de dizer não ao Papai Noel¿



Difícil imaginar quem tenha coragem de dizer não ao Papai Noel. Eu, que acredito no bom velhinho e na magia destes dias que envolvem o Natal, creio que dá para dizer não às crianças, mas nunca aos bons sentimentos natalinos.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Um pouco confuso

Dia de chuva em Goiânia e enquanto nos dirigimos para o almoço na casa de amigos, falo com o namorado no telefone sobre a programação da tarde.

- Garfield, nem pensar...

Tomás, que ouvia a conversa, diz:

- Mãe, Garfield sim.

- Não, filho. Eu adoro ler Garfield, mas os filmes são horríveis.

- Mãe, você não respeita a "população" do Garfield.

- Ahn?!?

- É... Quis dizer que o filme do Garfield é muito bem mal feito.

(...)

- Mãe, acho que estou um pouco confuso hoje. O que quis dizer é que o Garfield faz sucesso e o filme é bom. Melhorou?

- Muito, filho. Mas como gosto muito do Garfield, em um dia de chuva assim, prefiro curtir uma preguiça. Ele aprovaria.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Meu filósofo de bolso

Já li Marx, Platão, Adorno e Horkheimer. Já sofri para apresentar trabalho sobre Decartes nas aulas distantes de filosofia. Mas hoje quem mais alimenta minha cuca é o meu pequeno pensador, Tomás, que vê a vida com uma experiência de outras prováveis vidas vividas.

Tudo começou com um diálogo sobre o futuro, que prende muito as atenções do menino. Na primeira aula de karatê, ele já queria saber o dia em que se tornaria um faixa preta. E assim é no dia-a-dia. Se estamos no domingo, ele já sofre pela segunda. Ele toma um sorvete, pensando na próxima bola. E não nega a mãe que tem, em uma ansiedade idêntica pelos dias que ainda estão por vir.

Mas, como educadora, precisei alertá-lo sobre os perigos de se viver no futuro e não dar a atenção devida ao tempo de agora. E pedi para que tratasse de viver os momentos “como nunca mais”. Então, ele me perguntou:

- Mamãe, no que você pensa mais? Passado, presente ou futuro?

Pausa para pensar. Eu penso mais no passado e no futuro, mas tive que mentir.

- No presente, filho. No que estamos vivendo agora. Mas penso também no nosso futuro, mas sem gastar tempo com isso.

- Eu penso mais no futuro, mãe. Porque o presente eu já estou vivendo e o passado é estranho.

- Como assim, filho?

- O passado é cada dia maior para uma memória cada dia menor. Então, eu vou me esquecendo de algumas coisas para dar lugar a outras. E ele fica lá, sem emoção, porque eu já senti tudo aquilo e agora não sinto mais. Para você, mãe, também é assim?

Para mim, o passado ainda é cheio de cor, ainda mais se tratando dele. O dia que nasceu, o primeiro passo, a ida para a escola, as descobertas... Mas nada se compara ao dia de hoje e ao que está por vir da cabeça deste meu filósofo de bolso.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O que você faz quando não acha uma vaga?



Se dirigir está difícil, estacionar está um pouco mais. Com um número de veículos cada vez maior no trânsito, na hora de parar, a disputa por um espacinho para encaixar o carro é motivo de muita dor de cabeça. Para não perder a hora no trabalho ou na escola, é preciso se antecipar em minutos, porque para achar a tão sonhada vaguinha serão necessários minutos à mais dando voltas na quadra ou olhando fila por fila no estacionamento.

E quando você está na hora daquele cinema ou do casamento do melhor amigo, aqueles minutos passam a ser preciosos e o momento de folga inclui o desprazer de lutar por uma vaga. Aí a gente fica sabendo quem é o motorista da frente e o que ele é capaz de fazer para estacionar o seu carro... E isso faz uma enorme diferença.

Quantas vezes no shopping, naquele dia mais que infernal, você dá a seta para entrar na vaga que será desocupada e antes que você consiga fazer uma manobra, alguém que se diz mais esperto arranca e ocupa sem olhar para trás o lugar que seria seu? Ou na escola do seu filho, no espaço reservado para desembarque, um pai mais espertinho estaciona e por lá fica atrapalhando uma via de acesso rápido a ser usada por todos?

Aí tem quem estaciona em local expressamente proibido, em frente à garagem da sua casa, no espaço destinado às motos, na vaga exclusiva de um comércio, etc. Exemplos de falta de cidadania que irritam quem tenta seguir a lei e respeitar o direito do outro. Mas o que mais me incomoda e me deixa envergonhada é o motorista que estaciona na vaga destinada ao deficiente físico ou ainda o desinformado que coloca o seu carro na lateral desta vaga, onde fica o chão é marcado para o desembarque de um cadeirante.

Isso é muito comum na escola que meu filho frequenta, onde das prováveis 50 vagas, apenas duas são destinadas aos cadeirantes e ficam próximas à faixa de pedestre e ao portão de embarque por motivos óbvios. Mesmo na minha corrida hora de almoço, nunca tive coragem de dar “só aquela paradinha” naquelas vagas. Estaciono bem longe da entrada, na maioria dos dias, e quando carregando a mochila e a lancheira tendo o sol e o filho como companheiros, eu vejo a vaga especial com um carro sem adesivo parado por lá, me dá um nó na garganta.

Muitas vezes a pessoa não estaciona na vaga em si, mas ao lado dela, onde aconteceria o desembarque do aluno ou do pai com necessidades especiais. E muitas destas vezes eu conheço o motorista e fico morrendo de “vergonha alheia”. É que a gente faz um discurso e executa, na prática, muito pouco. Respeitar o outro significa, muitas vezes, nos sacrificar. Abrir mão de algum conforto. Esperar mais um pouco. Ter paciência redobrada.

Então, na próxima vez que você for estacionar, lembre-se que a vaga que você escolher e a forma como você vai chegar a ela diz um pouco de quem você é e, principalmente, como você se sente em relação aos outros.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Com olhos de criança

A semana começa com o segundo turno das eleições no Brasil e em Goiás, mas também com a perspectiva de um feriado prolongado e um dia para comemorar a vida das crianças à nossa volta. Estes dias de muita correria e prepotência para todos os lados, recorri a elas para manter o juízo são e a esperança intacta. É que ouvir crianças, em qualquer situação, rende para nós, adultos, a possibilidade ver o mundo de outra forma. Com olhos mais inocentes, mas igualmente mais criativos. Sentir o mundo de uma forma menos quadrada e mais possível de transformação. E, para mim, ainda rende boas histórias para dividir com vocês.




História 1

Meu sobrinho, enteado da minha irmã, estuda na mesma escola do Tomás e os dois apresentarão, ainda este mês, uma versão da Arca de Noé para os adultos corujas de suas famílias. Nas preparações para a peça, uma das tarefas de casa pedia para que eles dissessem qual papel gostariam de representar. Meu sobrinho estava na casa da minha irmã, que conduzia a questão.

- Então, Pedro, que papel você queria ter?

- O da onça.

- Da onça? Por quê?

- Porque a onça é mulher.

- Ahn?!?! Como assim?

- Isso mesmo. A onça é mulher. Ela que manda. Ela escolhe a hora que quer dormir, o que vai comer e ainda pode jogar Play Station qualquer dia da semana.

No lugar dele, eu também ia querer ser a onça.

História 2

Chego na escola e sou recebida por um coleguinha mais novo do Tomás, que estudou com ele no ano passado. Todo empolgado, ele me convida para conhecer seu novo cachorro, que foi buscá-lo junto com a mãe. Eu topo ver a cara do bichinho.

Ele chegar com o bichinho todo fofinho, de laços e perfume, para me mostrar com orgulho.

- Tia, é lindo meu cachorrinho, né?

Num impulso, eu chego minha mão perto do seu pelo branco e marrom para sentir sua fofura, no que Lucas me avisa.

- Tem que lavar a mão.

- Sim, eu lavo a mão depois que pegá-lo.

- Não, tem que ser antes. Porque ele tomou banho e você, não.



História 3

Eu e meu pequeno tivemos dias de cidadão nas últimas semanas antes da eleição. Levei o Tomás em alguns eventos políticos, como minha mãe fez comigo quando eu era pequena e ele ficou encantando com o clima de festa e com os candidatos. Já era telespectador assíduo de programas eleitorais desde os 4 anos e se tornou um pequeno militante.

Em um dos últimos encontros, apresentamos para ele a candidata deputada estadual que apoiávamos. Ele ficou feliz de tocar na mão de quem votaríamos. Mas voltou logo para a cadeira e buscou na minha bolsa a propaganda da candidata. Foi quando disse.

- Coitada, ela está bem mais velhinha do que nesta foto!



História 4



Na véspera da eleição, Tomás descobriu que não ia votar. Expliquei para ele que, dificilmente, os mesários deixariam que ele entrasse para registrar os meus votos na urna. Foi quando ele descobriu que caso “votasse”, seriam os meus votos e não os dele.

- Quer dizer que eu fiz campanha à toa e nossos candidatos vão ter um voto a menos?

- Filho, criança não vota.

- Por quê?

- Porque não vota, porque tem uma lei e criança não tem idade ainda para decidir o que é melhor para o País.

- Eu tenho, sim. Que te disse que eu não tenho?

- Filho, você nem sabe quem faz as leis.

- Eu sei. São os deputados federais e eu vou falar com eles que se a criança quiser, ela deveria poder votar.

E depois disso foi muito choro e consolo e a sorte de deixarem ele entrar na sessão na hora da votação.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O amor que se preza...


O amor que se preza não é encontrado facilmente, não está em prateleiras, não se vende em farmácia, não é presente embalado às pressas, não se esconde embaixo do colchão.


O amor que se preza é item raro, construído e moldado a quatro mãos, não tem comparação de tamanho, cor ou sabor, não se reduz ao tempo, não se achata ao descontentamento.

O amor que se preza é digno sem dizer, é sincero sem se gabar, é torto para encaixar, mas nunca é menos do que devia, insalubre ou indesejável.

O amor que se preza tem como missão proteger e como carma a felicidade.

O amor que se preza abre os olhos sempre antes, antecipa os passos para descobrir sorrisos, enternece só de ouvir.

O amor que se preza comete erros, mas nunca intencionais. É puro em cada troca de olhar. É condescendente com as falhas do outro. E se acredita eterno.

O amor que se preza é motivo de gozo, orgulho e satisfação. E torna únicos os amantes em um universo onde há mais paixões efêmeras do que relações verdadeiras, feitas de luz e sombra, de descoberta e ócio, de medo e conquista, de sonho e de contas.



xxxxxx



Para você que tem um amor assim, que a sua semana te permita iluminar o seu amor.



Para você que ainda não encontrou o seu amor, tenha esperança e nunca desista. O amor não se preocupa com o tempo.



Para você que já teve um amor assim, lembre-se dele com saudades, nunca com mágoa, para poder seguir em frente.



xxxxxxx



Fiquei ausente uns dias, mas só o suficiente para cumprir uma agenda extensa e cuidar um pouco do que rola aqui por dentro.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Para todo tipo de gente


Sim. Este mundo é feito para e de todo tipo de gente. Gente de tudo quanto é cor, tamanho, expressão, cultura, religião e até humor. Mas muitos acham que são donos do mundo, sem ser... Este mundo, azulzinho, repleto de defeitos e qualidades, é nosso. Ensinar isso aos nossos filhos é a tarefa mais árdua e prazeroza de nossas vidas. Ensinar e aprender com eles que cada um pode ser do seu jeito, que cada um pode gostar de uma coisa, que cada um pode amar de forma única. Somos todos diferentes e iguais ao mesmo tempo. Diferentes na nossa forma, no nosso conteúdo e iguais no nosso desejo: a felicidade.
Posto hoje, logo abaixo, um vídeo que recebi esta semana, em horas de desespero e desalento, quando me sentia bem sozinha nos meus problemas cotidianos. Como sozinha? Em um mundo repleto de gente? Impossível ficar só, mas sempre possível se sentir só em nossas diferenças. Onde há respeito e solidariedade, sentir se só é sempre por pouco tempo.
Produzido pela INDICA com a participação de crianças e de jovens em situação de risco. Se quiser conhecer, acesse: http://www.projetobemmequer.org.br/. E, se tiver 15 minutinhos, assista ao vídeo e pense bem: a gente pode mudar de caminho sempre. Mas o caminho é só uma forma de ser feliz.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Para uma viagem sem dia de volta


“Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la,

Em cofre não se guarda nada,

Em cofre, perde-se a coisa à vista”

Antônio Cícero


Esta música aí de cima foi a trilha de um momento especial da minha vida. Ainda era tempo do toca-fitas. E eu a ouvia sem parar em um cassete antigo e sem caixa. Era para ter aprendido, naquela época, a ser menos pisciana, a guardar menos do que guardo, mas não aprendi.

As tentativas foram várias. Quis, em vários momentos, colocar o meu lado sagitariano prático como só ele para dominar qualquer ação. Quis, em vários momentos, ser desapegada e dizer “tanto faz”. Quis jogar fora as chaves do cofre, mas as chaves fazem parte de mim.

Se tivesse que sair sem dia para voltar, tentaria levar na bagagem somente o essencial. Mas o meu essencial lota um guarda-roupa sem roupas, uma casa sem móveis e um coração sem mais espaço.

Nunca saio avulsa, vazia, repleta de nada. Quando consigo me desfazer de quase tudo, me resta um telefone, uma chave e uma pressa louca de voltar. Às vezes queria menos, bem menos. Porque o muito é uma delícia, mas ocupa espaço, demanda tempo e, muitas vezes, esconde o essencial. O “muito” rouba da gente a luz que deveria nos dar.

E o que é essencial diante de tantos sentimentos, tantas vidas já vividas, tantos sonhos imaginados, tantos tombos já tombados? O essencial, escondido no tal cofre, e que deveria iluminar a minha vida e a sua é o amor, o respeito e a solidariedade.

O restante, para qualquer viagem sem dia de volta, é supérfluo. Mas como se ensina a uma pisciana, que ainda guarda na gaveta o primeiro desafeto, a se desfazer do que pesa na bagagem? Eu preciso de esperança também, é certo, para acreditar que daqui até o final desta viagem sem dia de volta haja um lugar onde o essencial me ilumine e eu consiga iluminar somente o essencial.

“O céu deve ser assim... O céu deve isso a mim”. Marina Lima

sábado, 4 de setembro de 2010

No cinema quando eu era criança

Os melhores por Luisa, ainda criança... estes me fazem viajar em sessões da tarde, em filas na porta do Cine Ritz e em férias cuja a grande diversão estava na telinha pequena ou grande. Naquela época, não se tinha tantas opções. Mas as opções existentes eram maravilhosas!




A Dama e o Vagabundo (1955)

É o clássico que mais gosto e é a cena mais romântica do cinema a divisão do macarrão entre os dois.



Peter Pan (1953)

Quem não quis ficar pequeno para sempre que atire a primeira pedra? E depois de remasterizado, a Sininho se tornou ainda mais perfeita e, como nunca fui muito afeita a princesas, esta seria uma fada-princesa favorita.

Esqueceram de mim – Perdido em Nova Iorque (1992)

Eu já não era tão criança assim, mas sonhei em passar um Natal em Nova Iorque. E este filme representa todos os outros de Natal que adoro.


Bernardo e Bianca (1997)

Dois ratinhos, um orfanato, muito choro e a certeza de que vale a pena ajudar os outros.


Dumbo (1941)

“Eu nunca vi um elefante voar”. Tem uma mãe que protege seu filho, tem um filho que aprende a voar sozinho, tem um rato inteligente e amigo e tem blues...


Saltimbanco Trapalhão (1981)

De novo a música... Chico Buarque encanta em uma trilha sonora que faz parte da minha infância. E Renato Aragão produz o melhor filme da carreira dos Trapalhões. Inesquecível!


ET (1982)

No original, com narração do Michael Jackon... e aqui com toda a ternura de uma menininha loira que não parava de falar e de um alienígena que voava em direção da Lua depois de dizer: “caaaaasaaaa!”.


História sem fim (1984)

Quem não quis entrar em um livro de história e voar como Falcon? A história de Atreio está disponível em DVD e ainda encanta os pequenos, apesar dos efeitos especiais ultrapassados.

O Mágico de Oz (1939)


Por falar em efeitos especiais, quem precisa deles se Judy Garland resolver cantar “Over the rainbow”. Eu não. Vejo todas as vezes, viajo para Oz, faço novos amigos e fico feliz. Aqui também está contemplado outro musical: Mary Poppins (1964).

Karatê Kid – A hora da verdade (1984)

Se o favorito do meu filho é a versão 2010, a minha é a de 84, que assisti repetidas vezes na sessão da tarde e representa todos os outros filmes desta época: De volta para o futuro, Indiana Jones, etc. Eu queria ser a Elizabeth Shue!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

No cinema com Luisa


Os melhores pela mãe do Tomás... estes são filmes que já vi adulta do lado do pequeno ou de outros pequenos que fazem parte da minha vida.

Wall-E (2008)


Me fez chorar no cinema em pensar que é isso aí... O que estamos fazendo com o planeta? E também com vontade de começar tudo de novo e ser a Eva de alguém.


Viagem de Chihiro (2001)

Eu e filho temos algumas coisas em comum. Ver uma menininha de 10 anos crescer diante das mudanças em um filme repleto de poesia, ação e mais bela ilustração japonesa sempre me faz ficar arrepiada. E se há algo no mundo que devemos temer é a perda das lembranças. Não somos nada sem elas.

Shrek (2001)

O primeiro e só ele. A história deste ogro que conquista a princesa e a história desta princesa que abre mão das riquezas e dos salamaleques para estar ao lado do homem que ama é conto da vida real. Eu quero este ogro para mim!

Procurando Nemo (2003)

O pai de Nemo está desesperado procurando por ele e eu me lembrei de tantos filhos que procuram por seus pais. Se fosse como nos filmes e com final feliz, ia ser bom ser o Nemo.

Toy Story 3 (2010)

No meu caso, o herói favorito é Woody, que dá um jeito de manter a sua família unida.

Ponte para Terabítia (2007)

Em caso de mudança inesperada, quero ir para Terabítia, onde amizades verdadeiras duram para sempre. Filme lindo sobre a amizade entre um menino e uma menina, que vivem o drama de ser diferente buscando solução na magia de uma amizade.


Tainá – Uma aventura na Amazônia (2000)

Eu tinha um afilhado pequeno e uma vontade enorme de estar ao lado dele... Foi a estréia dele em uma sala de cinema, em um filme brasileiro, cheio de ação e que me fez entender que sagitarianos ficam em pé vendo filme.

As Crônicas de Nárnia (2005)

O filme é lindo, cheio de metáforas e me lembra o meu trio: Tomás-Carol-Rogério!

Coraline (2009)

Uma menina que não se sente “tão amada assim” pelos pais é o pano de fundo de um filme que mistura terror e suspense de uma forma surpreendentemente infantil.

O Rei Leão (1994)

É Disney!!! Não podia faltar. O Simba representa aqui outros heróis: Bambi, Pinóquio e Branca de Neve. O negócio é superar e a Disney sabe como ninguém dar lições de superação. Esse filme eu já vi adulta, mas não consegui mostrar para o Tomás. Não tem em DVD!!!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

No cinema com o Tomás


Serão 5 dias de folga para o pequeno (feriado e conselho de classe) e nos dias que antecedem um longo descanso resolvemos fazer a lista dos nossos filmes infantis favoritos. Foi muita discussão para chegar a uma lista de 10 para cada um de nós. Tentamos lembrar nomes antigos, de filmes vistos há tempos atrás, sentadinhos no sofá de casa.

No meu caso, foi mais difícil. Então, ganhei duas listas para contemplar os favoritos da criança e da adulta que adora filme de criança. Pode escolher um para ver ou rever, que a diversão é garantida. Os critérios de escolha foram emoção e boas lembranças. Para cortar, tivemos que ser injustos. O filhote, por exemplo, não quis nenhum que o fizesse chorar e tirou o Wall-E.

Para não ficar longo demais, dividi em três posts, que serão publicados até amanhã.


Primeiro, sempre os pequenos... E aqui, na lista, muitos filmes para maiores de 10 anos. Segurei o tanto que pude, mas percebi que ele queria algo mais e que dava conta deste algo mais. Para ele, neste filmes há mais lúdico do que olhos adultos podem ver.

Os melhores por Tomás...

Viagem à Chihiro (2001)


É o favorito do Tomás, por causa de um certo dragão que sai do rio e porque no final dá tudo certo. Foi feito antes dele nascer, mas um encontro na locadora garantiu uma apresentação encantadora.

Star Wars III – A vingança dos Sith (2005)

Aqui começa uma saga. Meu filho adora filmes que têm continuidade e nunca acha o primeiro o melhor. Este ele escolheu porque Anakim Skywalker (chamado por ele de Arakim) se transforma no temido vilão Darth Vader.

Harry Potter e o Enigma do Príncipe (2009)

Perto do final, o bruxo já é um adolescente e desconfio que o Tomás gosta muito disso.... Mas garantiu que a escolha por este e não pelo primeiro é porque finalmente alguns segredos são revelados. E não sou eu quem vou revelar quais, né?

Toy Story III (2010)

“Mãe, quem não gosta do Buzz?”... Acho que todo mundo gosta do Buzz e este filme enche os olhos de quem ainda vai crescer e não se imagina longe dos brinquedos e de quem já deixou os seus pelo caminho.


Alice no País das Maravilhas (2010)

Todo mundo esperava mais da versão de Tim Burton. Mas meu filho e me enteada ficaram muito satisfeitos e só queriam mesmo era um final feliz entre Alice e o Chapeleiro Maluco.

A Dama e o Vagabundo (1955)

“Mãe, este filme me lembra você...!”. E está lá na minha lista também.

Piratas do Caribe – O Baú da Morte (2006)

Ninguém no mundo gosta mais do Capitão Jack Sparrow do que o Tomás. E ele gosta deste em especial, porque o Jack está muito engraçado.

Indiana Jones e a Última Cruzada (1989)

Bastou um encontro com Harrison Ford para que o Tomás tirasse o chapéu e improvisasse um chicote. “Ele é o cara!”. Eu também achava...

Karatê Kid (2010)

Não adianta. O último é sempre o melhor. Mas tenho que concordar que o filme é tão lindo quanto a primeira versão.

Crônicas de Nárnia (2005)
Se você não foi à Nárnia. Vá agora... A entrada está dentro do armário e o Tomás queria ser o princípe Pedro a qualquer custo. Este é o único número 1 preferido pelo pequeno. Mas isso só até lançarem o 3.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

O (s) censo já passou na sua casa?

Lá em casa, o censo passou logo na segunda semana. Eram 19 horas. O Tomás me perguntou quem subia e eu disse que era uma pessoa que queria saber quem são os brasileiros, como eles vivem e o que eles esperam do Brasil.

Respondi uma dúzia de perguntas para um rapaz e para um Tomás muito interessado na conversa dos adultos e estava encerrada minha obrigação com o IBGE. No final, eu perguntei: é só? Para o que ele respondeu: sim.

Puxa! Eu queria entrar nas estatísticas das mães solteiras, dos que não têm computador em casa e dos que fazem reciclagem de lixo. Mas ele não quis saber disso. Foi embora e deixou eu e o Tomás na nossa rotina noturna banho-tarefa-jantar-conversinha-cama!

No outro dia, meu filho resolve usar o português ampliado em uma conversa sem cabimento:

- Mãe, eu tenho um censo dentro de mim.

- Como assim, filho? Censo?

- Eu tenho um (s)censo, mãe, de que no final tudo dará certo! É um (s)censo de sentimento.


Isso é o que esperamos para o Brasil e para nós, seus moradores convictos, uma esperança renovada.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Paciência

"O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência..."
 
Lenine
 
 
- Eu quero e eu quero agora.


Convivo com isso diariamente, com a minha impaciência e com a impaciência dos que amo e também dos que não amo.

A urgência dos compromissos, uma voz mais estridente, um carro que ultrapassa o seu bruscamente, um filho que não pode esperar, uma ligação que insiste em tocar enquanto você fala, um dedo que não para de atualizar para ver se o email chega, uma caixa de correios lotada de conta, uma agenda que se conta em meses, uma escada com tantos degraus, um menino que crescer rápido, uma ansiedade sem remédio, uma infinidade de sim, um pouco uso de não, uma noite que não se dorme nunca.

Paciência é recurso esgotável e raro, muito raro.

Quando reconheço no outro o dom da paciência, não sei se me admiro ou se me zango. Eu estranho ver quem, no auge do furacão, respira fundo e continua como se nada houvesse acontecido. Eu apresso quem, no meio da vida, pede calma.

Às vezes falta neste meu corpo um pouco mais de alma.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Amanhã é outro dia

- Mãe, o que foi com a tia fulana? Por que ela estava chorando?


- Filho, este é um assunto de adulto.


- Não, mãe. Choro é assunto de criança. Me diga o que aconteceu com ela?


- Filho, você não iria entender. Mas está tudo bem.


- Não, mãe, quem não está entendendo é você. Eu entendo tudo sobre choro e posso ajudar mais do que imagina.


- Ah, é, bonitinho. Como? Me diga.


- Dizendo para ela que vai passar. É só pegar na mão dela assim (pegou na minha), esfregar um pouco e olhar nos olhos dela antes de falar. Eu sei o que eu estou dizendo. Já fizeram isso comigo muitas vezes e passou.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Levando palavras nas mãos



- Mãe, meu dente sangrou.

- O que foi desta vez, Tomás?

- Eu tava rezando.

- Você sempre está rezando e por isso vive com as pernas roxas, as costas lanhadas e por aí vai...

- Não, mãe, é que eu tava rezando quando a professora pediu para a gente abraçar a amiga do lado. Daí meu dente bateu na cabeça dela.

(...)

- Eu bem que disse que essas coisas só acontecem quando a gente tá rezando.

O dente amoleceu e caiu na semana seguinte, seguindo na verdade, a sua vocação.

xxxxx

Estávamos no quarto vendo antigas fotos, eu e minha mãe, quando o pequeno entra invadindo o espaço e agarra um vidro de perfume antigo e borrifa no seu 1,2 metros. (O perfume já foi o meu favorito, mas é muito forte e agora fica na casa materna, para dias sem opção). Foi espirro para tudo quanto é lado.

- Filho, por que você fez isso?

- A professora falou, mãe, que hoje vamos tirar foto e que era para todo mundo ir perfumado. Eu é que não vou sem perfume, né?

Ele ficou perfumado para fotos a semana toda.

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Dia desses sai com ele para resolver pendências no Centro e parei meus olhos em uma loja daquelas antigas com vários utensílios domésticos e está na minha lista comprar uma panelinha de ferro para fazer um brigadeiro. Fiquei namorando a dita quando disse:


- Preciso tanto comprar uma panela nova, filho.


- Mãe, você não sabe que panela velha é que faz comida boa?


Sobre este tópico, nada a declarar. (Será que meu filho fez alguma indireta?)

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Sobre metades


Você já foi pela metade? Amigo pela metade? Filho pela metade? Namorado pela metade? Mãe pela metade? Acredito que não. Tem dias que, meio cansado, a gente se embola, fica de preguiça, deixa de fazer, mas mesmo assim, estamos ali 100%. Somos o que somos para os nossos. Imagine se, depois de uma bronca, o Tomás dissesse:

- Meio mãe, me desculpa, vem cá que eu quero falar com você.

Eu correria pela metade ao encontro dele. Não. Não. Isso não é possível. Eu sempre estou ali por inteiro.

Alguém inventou que os irmãos que não dividem a herança genética idêntica são meio irmãos. Dividido ao meio, eles têm o mesmo pai ou a mesma mãe, talvez alguma semelhança, talvez um bocado de história incomum, mas são no jargão comum pela metade.

E, às vezes por obra da vida, são pela metade também nela e não só na linguagem. São pela metade na convivência, nas brigas, nas confidências, nos sonhos, nas intrigas fraternas, nas divisões nem sempre justas, no ensinar a ser mais velho, no aprender a ser caçula.

Eu tenho por obra dos meus pais uma irmã, por inteiro, com quem aprendi a partir dos 6 anos a dividir, a tolerar, a brigar, a me defender, a controlar ciúmes, a esconder tesouros, a defender alguém do mundo. Mas aprendi com ela mais que isso. Aprendi a ser um pouco nela e a tê-la um pouco em mim. E aprendi que, além dela, poderia ter outros irmãos e irmãs, escolhidos a dedo para me fazer companhia em volta ao mundo.

Para o meu pequeno sempre imaginei um mundo cheio de irmãos, mas, por enquanto, ele tem uma irmã menor por parte de pai e a filha do meu namorado, mais velha, para quem ele reserva os seus testes de fraternidade. Ele é um menino com duas meio irmãs.

Com a irmã caçula, ele faz um exercício difícil de resolver as pendências, superar os ciúmes, estimular o afeto em uma agenda não diária. O que faz com que aquelas briguinhas desfeitas antes do sono, para quem vive por inteiro, se tornem rixas maiores. Com a irmã postiça, ele faz projetos de futuro, gasta seu suor para justificar suas vontades, conta os dias do calendário para a chegada do sábado e anda em ovos para não tirar dela o sorriso inteiro.

Dia desses, de novo em trânsito, ele me diz assim:

- Mãe, por que a vida só me deu meio irmãs?

- Filho, você não é feliz assim?

- Mãe, eu quero uma irmã para morar comigo, para brigar comigo, para dividir comigo. Você não pode trazer a Carol para morar comigo? Eu quero por inteiro.

Que duas metades se tornem, na vida real, inteiras para o Tomás. E que ele possa ser, para elas, também um irmão por inteiro.

* Foto do namorido: Carol e Tomás no parque, em cena da vida
como eles queriam que fosse sempre.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A visita na cartomante ou vai que...



Dia desses, no final do expediente, conversava com uma colega que dividia comigo as alegrias de um futuro romance quando ela me disse que já sabia dos detalhes do relacionamento via cartomante. Eu perguntei como tinha sido e ela me relatou os detalhes de uma das muitas sessões de cartas que frequentou.

A vidente disse a ela do novo namorado, de uma ajuda financeira e de uma mudança nos rumos profissionais. As notícias, neste caso, eram boas. Em três mãos de cartas, a dona cartomante tinha dito em detalhes que o que viria era bom. A riqueza de detalhes, que já se confirmavam nos primeiros momentos pós consulta, me deixou impressionada e resolvi saber o quanto era e talvez agendar uma visita ao meu futuro exposto no carteado.

Antes de pegar o telefone da dona cartomante, me veio uma dúvida, logo exposta a colega. “Ela dá notícia ruim também?”. Sim, ela dava notícias não agradáveis também. No caso desta cliente, em tempos remotos, ficou sabendo de uma doença familiar e de problemas na justiça. No final, tudo se resolveu como o previsto pela mágica das cartas. Peguei o telefone e fui embora pensando nos relatos.

E se eu for e as revelações não forem boas? Como diz a propaganda, vai que... vou ser trocada por outra, abandonada pelo filho, desdenhada pela enteada, processada pelos credores, ameaçada pelos vizinhos. E se só sair nas três mãos de jogo cartas de “cruz, credo!”, péssimos agouros ou uma lástima de previsão.

Pensei melhor. Não quero ir à cartomante não. Do jeito que está é uma notícia de cada vez. Meu namorado é o homem da minha vida, meu filho e minha enteada devem mesmo me amar, os credores fazem ameaças singelas via Embratel e os vizinhos nunca interfonaram lá em casa. Depois que eu for lá, vai que...

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

De volta... às aulas!


Então, voltamos hoje às aulas. Para algumas mães e pais, o serviço começou cedo, antes das 7 da matina, tirando os filhos da cama e preparando os mesmos para encarar o segundo semestre. Uma preguicinha, um desânimo, uma vontade de ficar na cama se apodera dos corpos dos pequenos, nesta hora. Mas e se, além disso, eles ficam tristes e reclamam do retorno.
Daí pode ser um problema. Cada dia mais percebo que a relação entre professores e alunos mudou muito, a escola colocou nas costas dos pais a "culpa" por crianças e adolescentes sem limites e desajustados por conta das suas famílias múltiplas, os pais colocaram na conta das escolas a dedicação que nem sempre podem dar aos seus por causa dos empregos acumulados, a falta de tempo e de disposição. A conta matemática não tem boa solução e não é resolvida nas primeiras lições.
Na minha experiência pequena, o Tomás frequenta a sala de aula há exatos cinco anos, percebi que temos que estreitar laços com quem comanda a sala dos meninos para que eles saibam quem somos, o que queremos e o que sabemos. Temos também que ouvir o que os nossos filhos nos dizem e saber que, muitas vezes, pode ser verdade. Os professores são humanos e podem, de um dia para o outro, implicar com quem a gente mais ama. Se a gente implica, imagine eles? E temos que estar presente dia sim, dia também, na porta, no pátio, no caderno de recados, na hora que der. Este é o nosso dever de casa.
A relação na sala de aula não é de comércio. Ninguém vende uma boa educação. Mas é de mão-dupla. Se algo não vai bem com a criança, há que se ter certeza de que o adulto responsável está tendo dificuldades em superar os desafios impostos por um ser humano em formação, sedento por conhecimento, por aventura e por diversão. Se todas as crianças fossem iguaizinhas, bem além dos uniformes, que tipo de sociedade seríamos? Precisaríamos mesmo de um bom professor? Gastaríamos tanto com escola, livros e cultura? Não. Porque as nossas possibilidades seriam finitas.
Que o retorno às aulas seja cheio de novos desafios e com gente disposta a vencê-los!
E que a gente posssa reler sempre Manolito e Mafalda, nas tiras do Quino, dizendo bem mais do que os quadrinhos normalmente permitem!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O que dizer, o que ouvir...

Às vezes a gente precisa ouvir/falar palavras de afeto sem restrição, sem segundos para pensar, sem gestos que dizem o contrário.


Às vezes a gente precisa ouvir de quem se ama muito e de quem te ama muito que está ali para o que der e vier, que te compreende, que sente muito, que se importa, que torce pelo melhor.

Às vezes a gente precisa ouvir/falar que tudo vai passar, mesmo que nada passe, que há perfeição no seu sorriso imperfeito, que tá bom do jeito que está, que ninguém arruma uma estante como você.

Às vezes a gente precisa ouvir/falar um agradecimento, uma interjeição de alívio depois de uma difícil chegada, uma interjeição de comemoração com qualquer sucesso, uma interjeição de prazer ao menor indício de carinho.

Estou treinando para ouvir. Estou treinando para dizer.

O silêncio é a música mais repleta de amor que existe. E me encanta hoje mais do que nunca.

Mas nas palavras reside a crueldade de todo ser humano e depois de ditas, as mesmas se multiplicam por aí, fazendo buracos nas cifras musicais de quem se ama verdadeiramente.

Então, pense antes de dizer e filtre o que vai ouvir.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Sobre a maior dor do mundo




Nesta vida tenho sonhos, coragem e esperança, mas tenho medo. Ele é forte, terrível e incoerente. Amanhece e dorme comigo. Mas não tenho como combatê-lo. Ele é o preço que pago por ser mãe. É o preço que pago por viver um amor incondicional. É o preço que pago por ter um pedaço de mim vivendo fora do meu corpo, correndo, pulando e respirando. É o preço que pago pela felicidade de ser chamada de mamãe.

O meu medo se renova todos os dias com a presença de fantasmas que estampam capas de jornais, que inundam estatísticas, que arrasam famílias inteiras. São muitos os casos em que a ordem inversa da vida se torna a ordem vigente e filhos jovens partem antes da hora, deixando desamparados pais cheios de planos e sonhos.

Esta semana que passou os fantasmas rondaram meu sono. Um menino de 10 anos morreu em um acidente de trânsito deixando para trás pai, mãe e irmã. Um jovem de 18 anos foi manchete repetida na mídia depois de ser atropelado e morto de forma brutal. Um garoto de 14 anos é vítima de uma bala na garupa da moto dirigida pelo pai . Todos eram projetos acalentados de homens, todos levados embora pela violência.

E a nós, distantes dos dramas destas famílias, cabe observar o que há de mais terrível no mundo: a dor de perder um filho. A única palavra que me vem à cabeça é “arrasador”. Destruir, avassalar, assolar... Porque não existe um período de luto para quem perde um filho. Existe uma vida inteira sem o que mais amamos e isso não é compreensível. Há que se ter muita fé, muita coragem e a certeza de que se deu o melhor em todos os minutos, que se entregou sem medidas à tarefa de educar, que possibilitou muitos sorrisos e que há uma razão insondável para tudo isso.

Que Deus proteja nossos meninos. Que nossas cidades tenham muros invisíveis que garantam a segurança dos nossos pequenos. Que haja esperança o suficiente para que, quem vive este drama inexplicável, possa continuar... Porque a maior dor do mundo não é digna de ninguém, não é destino de ninguém, não é merecedora de ninguém.

*Imagem do Globo do pai debruçado sobre o corpo do filho, em Fortaleza

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Não recomendado para menores de 12 anos

Nossa humanidade é limitada pela quantidade de erros que somos capazes de cometer. Todos os dias desde a hora que saímos da cama somos fadados a um errinho aqui, outro acolá. Uma preguiça desmedida, uma inveja boba, um mau humor desnecessário, uma raiva intolerante e lá estamos nós lidando com nossos limites demasiados. Alguns, por sorte, por dádiva ou por amadurecimento, são mais evoluídos e driblam bem o cotidiano com excesso de generosidade e sabedoria. Mas são raros estes seres. Na minha lista, devo computar uns três ou quatro adultos assim. As crianças não entram na conta, por inocência, são mais retas do que parecem ser. Erram menos do que as vezes que recebem correções. Agora, na medida em que vão ganhando anos na “carcunda”, elas têm que se esmerar no exemplo dos mais velhos e isso, com certeza, tira muitos pontos dele. A tal frase “siga o exemplo do seu irmão” devia ser abolida das expressões familiares. Os exemplos, muitas vezes, não têm nada de exemplar.

Digo isso depois que uma enxurrada de episódios medonhos deu ao futebol o título de esporte campeão em péssimos exemplos. Os esportistas deviam ter em seus contratos um item que os obrigassem a uma conduta digna e exemplar. Não falo só do caso Bruno, porque em toda a profissão, este ou aquele colega pode ter uma educação “mequetrefe”, um comportamento cafajeste e ter passado em branco pelas aulas de ética. Corremos o risco diariamente de trabalhar ou estudar ao lado de um psicopata, sem que este dê muitos sinais de tal comportamento. Mas o que dizer do comportamento diário dos ídolos do futebol nas partidas? O que dizer do Leão, do Dunga ou do Felipe Melo? O que é tolerável nesta que é a paixão nacional?

Meu pequeno está encantado e apaixonado pela bola. Ela é sua companheira nestas férias. Onde ele vai, carrega a dita cuja e tenta, aos poucos, ensaiar pedaladas, pênaltis e muitos gols. No apartamento, onde o objeto não pode entrar, ele extravasa sua paixão jogando no vídeo game e criando novas finais para a Copa. Tudo muito bacana não fosse por pequenos incidentes, como este, em uma tranquila manhã de domingo.

O Brasil enfrentava a Argentina no final de uma Copa que está longe de acontecer. O Tomás era o Brasil, que levara um gol da Argentina e estava bem perto de perder, quando o menino esmurrou o nosso sofá. Esbravejando, disse que o time era uma “merda”.

- Tomás, o que é isso? Você está brincando ou está brigando?

- Nada não, mãe, só fiz como o Dunga. Lembra? Eu sou o técnico deste time aí e tenho que colocá-los para funcionar.

Minha mente funcionou rápido ao dizer que aquilo não era bonito, mas o discurso longo é bem menos marcante do que ver na televisão a pessoa para quem torcemos fazendo o que não devia, sendo um péssimo exemplo para pequenos brasileiros que um dia irão repetir o que viram no passado. Acho que nossa humanidade esbarra nos nossos erros e não posso cobrar de jogadores e técnicos que sejam menos humanos do que nós. Mas quero poder cobrar que os ídolos tenham condição de receber este título e usem, pelo menos, o básico da boa educação ou então, na hora do jogo, vão ter que censurá-lo. Proibido para menores de 12 anos. A pelada com direito a gritos e a reclamações de marmanjos é saudável, mas quando vira festival de grosserias tem que ganhar cartão vermelho.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Regra para dias além das férias




Desde que me entendi como mãe, uso o tal sistema de regras. São regras para isso e regras para aquilo. Dia da bala, hora de dormir, dia do videogame, hora do desenho. Quando Tomás foi para escola, as regras ganharam nome fofinho: combinado. Mas, na forma, é a mesma coisa. Se não cumprir a regra, perde o direito. Um dia, minha terapeuta me fez uma pergunta: e quando é que ele ganha? Não soube responder, mas passei a usar a “perda” com mais moderação.

Mas mesmo com moderação, na hora que nos deparamos com situações em que os pequenos estarão completamente por sua conta e risco, temos que apelar para uma enorme lista de regras, com o propósito de acreditar que estaremos onipresentes durante aquele período.

Então, esta manhã, antes do início da colônia de férias, que duram exatos cinco dias, eu explicava ao pequeno tudo o que podia (na verdade, o que não podia) durante o período que estiver por lá.


- Filho, a primeira regra que nunca podemos nos esquecer é que temos sempre que respeitar os outros!

- Sim, mamãe, principalmente os mais velhos.

- E também temos que cumprir os combinados do grupo, não entrar na piscina antes da hora, usar filtro solar, respeitar a fila, não fugir da sala, não tentar resolver situações difíceis chorando, não rir dos outros, juntar os nossos pertences e comer tudo que colocarem no nosso prato. Entendido?

- Sim. Entendi tudinho. Só faltou uma regra.

- É! Qual? (Como assim faltou uma regra, eu disse tudinho?!?!).

- Combater o racismo, mãe. É muito importante dizer não ao racismo.


Algo na Copa do Mundo ficou e neste caso é uma boa regra, em que ele ganha e não perde nadinha. Lá se foi ele, acompanhado dos primos, com a mochila nas costas, pronto para cumprir e descumprir regras e para aprender com o mundo como é que se pode ser feliz.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Pelo direito de ser mãe

Duas amigas anunciam que começarão 2011 diferentes. Serão mães. E isso faz toda a diferença. Não é fácil, não é raso, não é simples. Mas é transformador, mágico e poético. E ser mãe foge de fórmulas, mas não de batalhas. Foge de estereótipos, mas não de sofrimentos. Foge do perfeito, mas não da perfeição. E compartilhar isso com elas e com todas as minhas amigas que são mães é um estreitamento de laços, é uma comunhão de sensibilidade.
O Grupo Cria fez um manifesto interessante, defendendo o básico, a valorização da matenidade. Nos tempos atuais, em que compramos livros do passo a passo da educação dos filhos nas prateleiras do supermercado, em que a escola sabe mais do que nós mesmos sobre quem são nossos herdeiros, em que o melhor está no bolso e não no coração, acho que vale muito ler o manifesto e assiná-lo se possível. Ele está disponível em http://www.grupocria.com.br/.
Para as duas amigas desejo alargamento de corações para curtir as mais diferente emoções.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Saudade

Domingo quase normal, não fosse pela ausência das crianças em uma agenda de compromissos de adulto: um casamento e um show. Foi, digamos assim, um dia de folga para eu e namorado, que nos permitimos ser apenas namorados. Mas também foi quase normal, porque aqui dentro algumas conexões do ouvido e da boca mexeram comigo, com sentimentos guardadinhos que resolveram desembarcar no final da noite em formato de gordas lágrimas. A saudade vem e volta por aqui. Tem dias que é normal, apenas fato, como é fato que trabalho das 9 às 18 horas. Tem dias que é dolorida, arde no meio do dia e faz um grande estrago em pedaços da minha noite.

Ontem não foi de estragos, nem de fato. Senti saudades de uma forma tão melancólica, que fiquei carregada dela, como um navio pronto para desembarcar em algum porto e fazer entrega de amor atrasado. O primeiro sinal apareceu assim. Meu namorado tentou lembrar o nome de alguém, na festa do casamento, e o nome não veio. Daí, eu me lembrei que meu pai, quando encontrava um conhecido e tinha uma falha na memória, usava como recurso chamar a pessoa de “professor ou professora”. Era um sinal de respeito, para ele, afinal o cargo tinha um grande valor. Contei a historinha, rimos juntos e seguimos festa adiante.

Na festa, tinha samba e tinha Paulinho da Viola, um dos favoritos do meu pai. O coração ficou quentinho e quietinho ao ouvir. Meu pai gostaria de ter ido a uma festa assim, com samba, sem formalidade, com risos fartos e com muito “se sinta à vontade”. Já em outra música, a banda convocou os convidados a dançar. Um senhor sentado na mesa ao lado disse: “Se for o Paulinho da Viola e se você me emprestar uma caixinha de fósforo, eu vou”. Meu pai também iria. Ele batucava uma caixinha como ninguém. Fechei os olhos e ouvi o som, o som da minha infância. A caixinha Fiat Lux roxinha tamborilando nos dedos escuros do meu pai. Na boca, um riso contido.

O samba continuou, eu bebi mais do que devia e fui resolver meus problemas de glicose com os doces da mesa. A noiva fez uma belíssima escolha de servir doces típicos. E eu escolhi os meus favoritos: doce de leite e figo cristalizado, este último da lista do meu pai. Na hora que mordi, o desejo de dividi-lo ao meio foi grande. Ofereci duas vezes ao namorado, que recusou. Eu queria mesmo era dividi-lo. Dar um pedacinho ao meu pai, que amava doces como eu. Na época do figo, eles enfeitavam nossa geladeira e com ele já doente, encomendávamos figada e quindim para adoçar seus dias.

Fomos embora para um soninho que cura tudo e partimos para o show de Maria Gadu, que encerraria nosso domingo sem filhos. Ouvi atenta a apresentação belíssima da cantora, encostada em ombro quente, quando ela cantou: “Se queres partir ir embora. Me olha da onde estiver. Que eu vou te mostrar que eu to pronta. Me colha madura do pé. (...)O apego não quer ir embora. Diaxo, ele tem que querer.”

Já tem dois anos e quatro meses que meu pai foi embora, mas o apego, não. Em cada canto, em cada lugar, imagino como seria se ele estivesse aqui. Para você que sabe do que estou falando, de um desejo secreto de inverter a ordem do mundo, divido a música de Gadú, Dona Cila, que mexeu comigo em uma noite de domingo molhada de lágrimas.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Um bom competidor



Como garantir que, aos 6 anos, seu filho irá entender quais são as regras que podem mantê-lo íntegro diante da prática esportiva? Esta foi a pergunta dos últimos dias lá em casa.

Campeonato mundial de futebol na televisão das 8h30 às 17h15, quando acaba o último jogo. Jogos internos de segunda à sexta na escola, onde ele deve comparecer com sua camiseta roxa e um espírito para lá de esportivo. Campeonato familiar em frente ao play station, em seus primeiros passos, no comando de um videogame.

Em frente à televisão estão ruidosos torcedores, que tomam partido dos times que lhe convêm no sentido de ver um Brasil hexacampeão. O acúmulo de 6 títulos para o mesmo País não parece nada injusto diante de uma trajetória tão brilhante no futebol. Os comentaristas, vez ou outra, incitam a competição e mostram para qual o partido os torcedores devem se aliar. Ai de quem em terras brasileiras torcer para o futebol argentino. O técnico do nosso time é execrado por muitos com palavrões nada elegantes e usa dos mesmos para se defender.

Na escola, as filas de alunos na hora do hino vestem camisetas de cores diferentes, a entrega da medalha em um sábado anunciado é motivo de grande expectativa, na ponta da língua alunos maiores e menores guardam jingles sobre suas potências esportivas e dentro da mochila um manual esquecido fala de boas regras durante os jogos internos.

Então, naquele clima aguerrido de competição, ele me diz:

- Mãe, se alguém do outro time ficar me zoando, daí eu posso zoar dele, né?

- Filho, não pense assim. Você precisa participar respeitando o seu adversário.

- Mas e se ele não me respeitar, se ele me chamar de perdedor?

- Você deve sempre mostrar para ele que o respeito é importante, que vocês estão competindo em um amistoso e que todos são importantes.

- Mãe, importantes são aqueles que vão ganhar e se eu não ganhar...

O festival de “e se” continuou até que resolvi pegar o manual interno dos jogos. Leio as regras pausadamente até que chego a esta pérola. “Ninguém é perdedor antes dos jogos começarem”.

- Tá vendo, mãe? Depois que os jogos começarem, alguém vai chamar alguém de perdedor? Nessa hora, eu posso, né?

Espírito coletivo, respeito, solidariedade, harmonia e admiração são valores ligados aos esportes, mas bem menores do que o sabor da vitória. Lidar com isso em um mundo tão competitivo é um desafio para pais, educadores e filhos. Queremos ganhar, mas a que preço?

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Para ser um bom namorado

Dia desses, sentados em volta da mesa, conversávamos sobre a vida, as relações, o tempo, o cardápio... As crianças em polvorosa usavam o direito à palavra mais que o habitual. Era uma noite de sábado e a tranquilidade de termos o tempo todo juntos fazia com que isso fosse muito bom.

Não sei como chegamos ao assunto, mas ele foi muito deliciado. Tomás decidiu ditar as regras para ser um bom namorado. Com auxílio da Carol, minha enteada de 10 anos, ele postou regras, algumas muito justas, outras muito engraçadas, mas todas, sem exceção, muito pertinentes para quem quer agradar muito.



1 – Deixe-a fazer o que quiser, mas é o que ela quiser mesmo, disse o pequeno com ênfase encarando o meu par estupefato (aprovado com palminhas!);

2 – Nunca fale demais, senão encanta tanto que até enjoa (faz todo o sentido para ambas as partes);

3 – Jamais encontre sua namorada sem tomar banho. Namoradas gostam de namorados cheirosos (alguém discorda?).



Estas foram as três primeiras e as mais marcantes, que mostraram o poder de observação de duas crianças. Depois eles seguiram desfiando um rosário de boas maneiras e gentilezas que encantariam qualquer mulher. Flores, datas importantes, jantares românticos, viagens com toda a família (acham que eles são bobinhos?) e muito mais...



Regras que garantem com certeza um bom título para qualquer namorado. Mas se o sujeito tiver dificuldade em aprender coisas tão simples, eu estou pensando em montar um curso com meus pequenos instrutores. E, nele, vou acrescentar apenas uma regra. Para o amor, não pode haver excessos de fala, de brigas, de desencontros. Mas pode ter excesso sempre de carinho.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Acreditar





Acreditar: dar crédito a, crer, ter como verdadeiro, aceitar.



Na minha criação, sempre foi forte a dúvida. Meu pai, dia domingo, em frente à televisão, duvidava dos sorteios realizados na televisão. Dizia sempre:

- É marmelada! Tudo enganação.

Eu me limitava a não sonhar com prêmios instantâneos para solucionar problemas reais.

Minha mãe, na sua experiência de muitos anos de vida, sempre duvidou de verdades construídas no caminho da escola para casa, na justificativa de uma falta ou de uma nota não tão bonita.

- Minha filha, eu te conheço só de olhar!

E eu não era crível, nestes momentos. Então, desmoronava tudo aquilo que eu podia acreditar.


Foi assim que ganhei uma boa dose de descrédito. Passei, no geral, a não acreditar. Antes de formar uma certeza, vinha a dúvida. Será que é isso mesmo? Será que vai dar certo?

Ao descrédito, se somou uma dose boa de pessimismo, talvez advinda da minha conjunção astral: peixes com ascendente em sagitário, talvez fruto de uns tropeços fortes que me fizeram rolar no chão, talvez porque eu precise lidar com o concreto para não ceder às minhas fantasias.

Foi daí que criei o hábito de, diante do sorriso sincero de alguém, semear uma dúvidazinha, às vezes tão sincera, mas sentida de forma tão cruel por quem a escuta.

- Será que isso vai dar certo? Melhor você ficar atento para não se iludir.

Quando vejo, eu já disse. Já pensei em todas as coisas horríveis que a pessoa pode passar por acreditar demais. E se ela perder algo, alguém, chorar, sofrer, morrer por uma ilusão.

Na minha cabeça, lá vem o Chico Buarque, cantando:

- Ilusão, ilusão, veja as coisas como elas são.

O pobre ao lado vê seu sonho dourado, cultivado em noites de muita fé, descolorindo diante da minha descrença. E, nesta hora, me sinto um vírus devastador, que não escolhe suas vítimas, e corrói a esperança alheia no meio de uma conversa.

Acho que fiz isso tantas vezes que me cerquei de descrença ou talvez, aqueles que estão ao meu lado, desistiram de declarar suas crenças, seus sonhos, suas certezas. E eu fui me sentindo vazia... Vazia de não acreditar no dia seguinte.

De uns tempos para cá, diante da falta de fé geral ao meu lado, estou sentindo falta de acreditar. Tento, diariamente, não acionar este botão vermelho, item de fabricação familiar, e acompanhar sonhos alheios sem tanto questionar.

Tento encontrar em mim um pinguinho da certeza de uma menina de 8 anos, que queria ser dançarina, e não via problema em não ter nenhum ritmo ou talento para tanto. Tento encontrar em mim a mulher, que ao se deparar com uma gravidez inesperada, tinha certeza que tudo daria certo, mesmo que isso fosse improvável. Porque sem sonhos, sem certezas, sem fé, não dá para seguir. E, nestes dois momentos, acreditar no impossível tornou a realidade menos dura e eu segui. Agora, preciso de novo seguir.

Se um dia eu te perguntei “será” e plantei uma dúvida nos seus sentimentos, me desculpe, sinceramente. Perdoe a minha descrença e se puder, divida comigo novamente o seu acreditar, porque é com ele que a vida brilha e é com ele que vamos chegar.

Vou mudar de trilha:


Agora, para mim, a menina dança...



quarta-feira, 9 de junho de 2010

Para amar depois dos 30


Estou certa que amar depois dos 30 é diferente de amar aos 20. Exige mais, bem mais, dos amantes, do que a naturalidade do primeiro amor. Exige cálculos nada matemáticos, mas que somam, dividem, diminuem e multiplicam em um tempo da vida que o caminho trilhado quase deixa o vagão estacionado. O amor iniciado a partir dos 30 exige coragem para deixar as noites bem ou mal dormidas, mas todas conhecidas, para se arriscar nas noites ao lado de alguém.


Começar um amor aos 30 significa, sobretudo, reaprender aquilo que a vida, por algum motivo, deixou de nos re-ensinar: a tolerância. Não estou aqui dizendo que depois de viver 29 anos, a pessoa se torna intolerante. Mas, pelo que conheço, a tolerância se torna bem mais limitada. E quando se está sozinho, há algum tempo, ou quando já se viveu decepções demais, o coração fica menos mole ou talvez mais precavido e resolve criar certas regras: “isso não”, “aquilo de jeito nenhum”, “nunca com isso”. E às vezes no anseio de proclamar a nossa maturidade, a gente confunde “seletivo” com “intolerante”.


Sim, sim. Com 30, temos mais capacidade para escolher e não ser escolhido. Já sabemos mais sobre nós mesmos, mesmo que este saber nunca seja o suficiente. Com 20, a gente tem que contar com sorte e ouvir mais os palpites de um coração apaixonado do que a sabedoria de ser jovem. Mas não podemos deixar que as histórias vividas, o amargo de uma, o saudosismo de outra, não deixe a gente arriscar, tolerar algo nunca imaginado, abrir mão de um certo comodismo de uma vida sem sobressaltos.


Aceitar algo novo significa entrega e pode ser um presente em uma idade em que a gente tende a confiar mais no próprio taco, em que sabemos o que nos faz feliz, em que não temos tempo para pequenas picuinhas, em que a mentira não nos pega como antes. Mas não é fácil... Nunca é. Você está lá, há 2, 4, 7 anos sozinho, vivendo relações furtivas e divertidas, mas sem compromisso. Decide aonde vai, com quem, como vai. Decide também não ir. Decide ficar feio. Decide escandalizar. E isso só diz respeito a você e ninguém mais. É uma liberdade que, com 30, muitas vezes não causa anseios românticos. Muitas das balzaquianas que conheço aprenderam a se bastar de tal forma que abrir uma porta para alguém entrar é um grande esforço.


Muitas delas dizem que querem, que estão disponíveis, mas na hora H, pinta uma dúvida tremenda, um receio de sofrer, uma preguiça de tentar de novo. E de preguiça, eu entendo muito. Quase encerrei carreira, porque amor dá muito trabalho. Então nos fechamos por ali mesmo, brincamos com paixões passageiras e nos esquecemos do melhor sentimento do mundo. (Até porque é possível ser feliz sozinho).


Se isso acontece com você, não desista. Amar e ser amado vale muito a pena. Dias atrás, sem pensar na vida, recebi uma chacoalhada do meu pequeno herdeiro. Vínhamos da escola e ele me contava emocionado sobre o beijo que recebera de S. Na bochecha, of course. E eu fiz pouco caso, quando ele me perguntou:

- Mãe, você já beijou o amor da sua vida? Sim, porque eu já beijei e isto é a coisa mais maravilhosa do mundo.


Meu filho tem 6 anos e sabe que isso vale qualquer aborrecimento, desgosto, preocupação, desilusão. Na semana do dia dos namorados, receito a recomendação de Tomás, o sábio de menos de dez anos: “não deixe de beijar o amor da sua vida”. Aos 20, aos 30, aos 40...


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Aos que começaram aos 20 e não pararam mais, quero dizer da minha profunda admiração por quem beija o amor da sua vida desde muito tempo atrás. São mesmo graduados no amor. Estar com uma pessoa por mais de 10 anos é tarefa árdua e que requer mais do que tolerância. Requer criatividade, paciência, silêncio e muita gargalhada. Reinventar um amor é mais difícil do que encontrá-lo. Eu peço que me esperem. Estou no começo da viagem, mas chego lá.



Com carinho,


Luisa

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Lista de desejos


Se eu achasse uma lâmpada mágica esta semana, ia ser modesta para não assustar. Ia pedir pouco bem pouco, porque de muito, já estou cansada. Só o necessário para chegar até a próxima semana. E assim ia ser feliz agora, porque depois, nunca sabemos mesmo:



- Achar três figurinhas do álbum da Copa para deixar alguém feliz;

- Dividir uma garrafa de vinho em boa companhia;

- Escutar música para lembrar e não esquecer;

- Surpreender cedo, muito cedo;

- Encontrar na livraria aquele livro, há tempos desejado;

- Acordar tarde só um dia;

- Encontrar a máquina fotográfica perdida;

- Fotografar o caipira mais charmoso que conheço;

- Fazer a receita certa;

- Ouvir de uma amiga notícia de alívio;

- Rir alto no cinema;

- Multiplicar horas no relógio dos meus sentimentos;

- Perdoar mágoa recente;

- Ouvir “segredos de liquidificador”;

- Ser surpreendida.

Só isso me basta. Eu juro.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Por eles, somos responsáveis

Se tem algo no mundo pelo qual somos responsáveis é o amor de uma criança. Deveria ser lei, mas não é. Deveria ser de praxe, mas não é. Deveria ser natural, mas... Peraí! Não natural é não retribuir o amor de pequenos seres humanos. Até os bichos compreendem isso e não coisa de filminho da Disney.


Me dói pensar em qualquer tipo de indiferença ao sentimento de uma pessoa com menos de 12 anos. Os com mais de 12 anos já tem um pouco de couro e dão conta de se defender. Me solidarizo com eles, mas sei que a maioria dá conta do recado.

Agora não acho justo, nem plausível, explicar para uma criança que quem deveria amá-la, protegê-la, admirá-la, não está nem aí. Mas, muitas vezes, me deparei com esta situação. Muitas vezes ouvi esta história, muitas vezes fiz parte desta história.

Não estou aqui falando daqueles momentos em que os filhos, se sentindo injustiçados, pensam que não são amados pelos seus pais. Não estou aqui falando daqueles momentos de discordância, que aos 10 anos parecem o final do mundo, e nos deixam arrasados e nos sentindo péssimos.

Estou falando de um telefone que não toca, de um email que não se responde, de um encontro que não acontece, de um pedido que não é aceito, de um amor que não é respeitado. Estou falando de uma criança pequena, com olhos marejados, com coração partido, com sonhos desfeitos. Estou falando deste mundo, que abriga pessoas cruéis, que convive com injustiças, que traduz incoerências mil.

Nós, pessoas crescidas, estamos prontas para a defesa quando somos atacadas. Sofremos, amargamos, gritamos, mas resolvemos de qualquer jeito. Mas uma criança com poucos anos de vida não sabe o que fazer e normalmente se encolhe diante da crueldade do adulto.

Estou falando de pais e mães, que não vivem mais ou nunca viveram com os seus filhos, mas que são eternamente responsáveis por eles, mas lhe negam o básico: o afeto e o respeito. A situação hipotética remete aos pais que estão fora de casa, mas é fato que isso ocorra também com quem vive junto. Muitos deles, para negociar com suas próprias consciências, fazem cena e acreditam mesmo que os seus filhos não compreendam. Crianças não são burras. Nunca subestimem a inteligência delas. Para cada passo que a gente dá, uma interpretação é feita. Muitas vezes, com seus olhos de lince, elas vêem mais que a gente.

O monólogo que se segue me surpreendeu em uma manhã cinza.

- Eu sei bem mais do que você imagina. Eu conheço as pessoas. E eu sei quando elas gostam ou não de mim. Você está me ouvindo, mãe?


- Ahan.


- Mãe, sabia que tem gente que ama uma pessoa e não ama a outra? Sabia que eu não acho isso certo? Na verdade, mãe, eu acho isso bem chato, bem feio.

Não tenho consolo em legislações que teoricamente dão conta deste problema. Ele é maior que a lei.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Quando eu chegar aos 70...


… quero acertar sempre a receita do bolo, mas se errar, quero dar de ombros.

... quero tricotar casaquinhos para os meus projetos de bisnetos.

... quero admirar as fotos das minhas viagens em família e dizer que não preciso mais voltar em nenhum daqueles lugares. Quero ter seus mapas no meu coração.

... quero fazer uma festa linda para comemorar os meus 70 anos e cada um dos dias que virão depois.

... quero receber mimos diariamente, apenas porque terei 70 anos e isso é muito nos dias de hoje.

... quero ser perdoada por qualquer excesso ou preocupação desmedida, porque vão compreender que já vi e já sofri o suficiente.

... quero ser ouvida duas ou três vezes no relato da mesma história, mas que é a minha história e é a que me faz feliz.

... quero furar o dedo na roseira que terei no quintal da minha casa, uma casa que terá o meu cheiro e o meu jeito depois de muitos anos dentro dela.

... quero saber quando vai chover só de olhar o céu.

... quero não enfrentar fila de nada, mas de nada mesmo, porque não terei mais nenhum tempo para perder.

... quero reconhecer nos meus filhos (ampliarei a prole até lá) a angústia dos meus 30 anos e saber que cada um deles irá passar por isso para se tornar melhor.

... quero me permitir ter tantas músicas preferidas quantos são os meus anos;

... quero dançar o ritmo do meu tempo, colada a quem eu amo, sabendo que o compasso ainda está no peito;

... quero ainda achar bom sentar no sofá com um balde de pipocas só para mim;

... quero não precisar mais chorar escondido, reclamar escondido, temer escondido. Vamos combinar que esconde-esconde é para a infância? Na velhice, quero assumir tudo.

... quero ver a lua cheia ou minguante, não me importa, quero contemplar sem esperar nada;

... quero ter saudades, muitas saudades, de quem se foi. Mas uma saudade que não doa como hoje, que não martirize como um dia. Quero sentir saudades como uma forma plena do amor;

... quero ter muitos gatinhos e trocar todos os seus nomes e os dias que estão por ali. Quero poder implicar com eles, pela sujeira que fazem, pela bagunça que aprontam, apenas para poder implicar, porque implicam demais com aqueles que são velhos.

... quero ligar para minha irmã e tratá-la como uma criança que nunca cuida daquela gripe, que teima demais quando vai ao médico e que não me obedece nunca. E com isso me sentir de novo uma irmã mais velha, uma criança crescida;

... quero jogar buraco com minhas amigas, nas quartas, impreterivelmente e quero difamar aquela que se ausentar, dizer que ela é uma velha, que se apoquenta com qualquer problema de filho;

... quero fazer hidroginástica (bem antes disso também) com uma tradicional turma, com quem irei trocar receitas, fofocas sobre a política e as histórias de seus maridos ingratos com a certeza de que, em casa, terei um companheiro com o qual vou dividir os gratos dias que ainda me restam;

... quero rir até chorar dos dias em que fiquei triste demais, em que não acreditei, em que achei que não ia dar;

... quero ser chamada de vovó por uma porção de gente, filhos dos filhos, filhos dos amigos dos filhos;

... quero ter a bênção de reconhecer Deus no fato de respirar e ter com ele diálogos muito verdadeiros sobre o nosso encontro.



Assim quero que seja, sem vírgulas fora do lugar. Então, quase no meio deste caminho, vou colocando os tijolinhos que faltam para eu chegar lá. Ainda faltam muitos, eu sei, mas não é de hoje que estou batalhando.



Esta semana que chega assim com o frio do junho já anunciado, a mãe de uma amiga completa os seus 70 anos. Não sei como ela se sente, mas queria dividir com ela o que sinto ao vê-la em idade tão madura. Sinto assim que deve ser bom, mesmo que só, que deve ser mágico se sentir prolongada na vida de outras pessoas, que deve ser sábio saber mais do que qualquer um de nós. Mas para não perder o encanto do que espero para os meus 70... não vou perguntar. Vou imaginar, porque aos 30 isso pode ser saboroso.