quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Na carne



Nunca falei da minha profissão oficial por aqui, talvez porque ela não caiba em algo tão lúdico, talvez porque eu tenha entre os meus leitores mais assíduos profissionais da área, talvez porque ultimamente quero discutir o rumo que o jornalismo tomou.


Mas, na semana passada, um amargo tomou conta da minha boca e, provavelmente, da boca de outros tantos colegas. É que, na maior empresa de comunicação do Estado, dois dias foram o suficiente para mandar três dezenas de pessoas embora para casa sem trabalho. Pessoas que têm muitos anos de trajetória profissional, pessoas que têm família, pessoas que têm sonhos, pessoas que acreditam na importância da comunicação.

No ano passado, quando fiquei sem emprego, eu senti na carne o que é voltar para casa sem saber do dia de amanhã. Entre o desespero, a angústia e o medo, o sentimento que mais sobressai é a decepção. Decepção pelo tempo investido, pelo projeto de amanhã, pelo compromisso não cumprido.

Quando, nestas histórias, existe pequenos que precisam de você, ela fica ainda mais dura. Como explicar para uma criança que hoje você não sairá para trabalhar? Como dizer que, talvez amanhã, você terá uma resposta de um emprego? Para quem, desde pequeno, vê o pai e/ou a mãe sair de casa para cumprir sua obrigação com a família, com a sociedade e consigo mesmo, a sensação é de fragilidade.

Mas o amanhã chega e, mesmo que não se levante como antes, a gente reage e segue adiante. Encontra novos caminhos, novas perspectivas, novos sonhos. E melhor que isso, a gente descobre que sonhar junto não é fácil, seguro e nem sempre vale a pena. Agora, me diga, e o jornalismo? Como ele fica amanhã?

Segue a nota de repúdio do Sindicato dos Jornalistas do Estado de Goiás, divulgada ontem:

 
NOTA DE REPÚDIO ÀS DEMISSÕES EM MASSA NO JORNAL O POPULAR


O Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de Goiás e a Federação Nacional dos Jornalistas vêm a público para repudiar a atitude da Organização Jaime Câmara de promover demissão em massa de trabalhadores do jornal O Popular, de sua propriedade. Nada menos do que 23 profissionais, a quase totalidade de jornalistas, foram demitidos entre os dias 21 e 22 de janeiro. Some-se a elas o anunciado corte da gratificação de função paga aos subeditores e outras oito demissões promovidas no Departamento de Telejornalismo da TV Anhanguera, também de propriedade da empresa. Um processo que foi marcado por um clima de terrorismo sobre a redação do jornal por mais de um mês.

O que causa estranheza nessa atitude é que a Organização Jaime Câmara atravessa uma fase não só de total equilíbrio financeiro, mas com resultados surpreendentes – a ponto de a própria direção da empresa ter anunciado, ainda em setembro de 2009, que a OJC fecharia o ano com um lucro de R$ 55 milhões. Ressalte-se que esse número foi corrigido dois meses depois, já que os resultados apontavam que seriam mais de R$ 60 milhões de lucro.

Portanto, não há que se alegar crise financeira para justificar as injustificáveis demissões. Pelo contrário, nem mesmo durante a recente crise econômica mundial as finanças dos veículos da Organização Jaime Câmara chegaram a ser abaladas. O período foi superado com crescimento no faturamento, inclusive com o pagamento do Programa de Participação nos Resultados, a despeito do achatamento salarial imposto aos trabalhadores da empresa.

No caso específico do jornal O Popular, há que se destacar que a maioria dos jornalistas demitidos contava com mais de 10 anos de casa, alguns com mais de 20 anos. A primeira conclusão que se tira desse fato é que, no jornal O Popular, jornalista tem prazo de validade: quanto mais tempo de casa, mais perto está de perder o seu emprego. Demissões isoladas, ocorridas nos últimos cinco anos, vêm corroborar essa afirmação.

Outra conclusão que pode ser tirada desse processo de demissão em massa é que, para a Organização Jaime Câmara, a única coisa que parece importar é sua sanha por lucros incessantes – a qualidade do produto fica para segundo ou terceiro plano. E isso tem ficado bastante nítido nos comunicados da direção da empresa aos funcionários – o objetivo é, antes de tudo, garantir mais lucros aos acionistas da empresa. O que se estranha é que, piorando a qualidade do produto, já que não há profissionais em número suficiente para garantir no mínimo o mesmo tipo de jornalismo que vinha sendo feito pelo jornal O Popular, certamente as vendas cairão, anunciantes podem deixar de anunciar. Com isso, dificilmente será atingido o plano de metas da Organização Jaime Câmara para este ano, que aponta para um resultado de R$ 90 milhões de lucro.

Por todas essas razões, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de Goiás e a Federação Nacional dos Jornalistas repudiam o processo de demissão em massa promovido no jornal O Popular e conclamam a sociedade a também se manifestar contrária a mais esse abuso cometido contra os trabalhadores.

Goiânia, 26 de janeiro de 2010.



Luiz Antonio Spada
Presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de Goiás


Sérgio Murillo de Andrade
Presidente da Federação Nacional dos Jornalistas

Nenhum comentário:

Postar um comentário